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Humaniza… o quê?

12 mar

Humanizar não é parir dentro da água entoando cânticos enquanto mulheres nuas dançam ao seu redor.

Ok, pode ser isso também, se for esse o SEU jeito de se sentir segura e poderosa para parir em paz. Mas vai muito além disso.

Joseph Tomanek 1889-1974 [círculo de mulheres = sonho meu!]

Pode ser parir em casa, assistida pela família (e, de preferência por alguém habilitado a observar e orientar o trabalho). Pode ser parir no escuro, em silêncio, sem nenhuma intervenção. Pode ser parir num hospital, tudo branco, muita luz, cercada de médicos, enfermeiras e toda a parafernália hospitalar. Pode ser parir no mato, gritando feito o bicho que somos, de quatro apoios, nas mãos de uma parteira anciã (e talvez com aquelas mesmas dançarinas bruxas-nuas do exemplo inicial). Pode ser parir olhando nos olhos do seu marido, segurando na mão da sua mãe, chamando pelo seu filho…

Pode mais ou menos que tudo isso.

[E pode então haver cesárea humanizada? Ih… Essa resposta é muito pano pra pouca manga. Mas… Resumidamente: pode. Pode, sim, porque não? Da mesma forma que pode, e tem muito, parto normal traumatizante. Humanização não se trata da ‘via de saída do bebê’. Mas aqui, assumo como parto o normal – aliás, dizer ‘parto normal’ é redundância. E a cesárea? uma cirurgia. Com os riscos e as dores que toda cirurgia acarreta, e, portanto, torçamos para que não se precise de uma! Mas e se mesmo não precisando e sabendo de tudo-tudinho a mulher prefere uma cesárea à experiência do parto? Então, amiga: humanizemos!]

NOTA: “Embora um médico humanizado de verdade, jamais aceitará fazer uma cesárea sem necessidade”

– observação muito pertinente da Ma Morini sobre a questão.

 

Se tratando de humanização, o assunto é amplo. O que é certo então?

Certo é que a mulher a parir estará cercada por aqueles em quem confia, num lugar em que se sinta acolhida, na posição em que se sinta mais confortável. Todos que desse momento participarem, conhecerão o plano de parto que ela fez, saberão o nome dela, o nome do bebê por quem esperam e farão questão de lhes tratar assim.

Haverá respeito, haverá amor!

Ela não terá mais medo que coragem, ela não se sentirá sozinha ou hostilizada. A dor será apenas física, e será o de menos diante da grandeza da experiência.

Ela não será separada abruptamente do seu bebê, impedida de amamentar ou obrigada a qualquer outra coisa. Aliás, é isso: ela não será obrigada!

Porque humanização é, acima de tudo, RESPEITO!

Porque humanização é, acima de tudo, RESPEITO!

Ela se sentirá segura!

E, por fim, sobre o momento em que deu à luz uma vida, ela sempre se sentirá FELIZ.

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E você, amiga-mães: se sente feliz com as memórias do parto?

Conta pra gente!

Eu,  não — clique > AQUI <  e entenda o porquê.

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Apenas um relato sobre a ‘dor de parto’

29 set

Cesárea dói.

Engana-se quem pensa que não, quem opta por uma por medo da tão famosa ‘dor do parto’, o normal.

Eu sou Ju Blasina, uma das autoras do blog Andogestando, poeta, bióloga, mãe do Dimi, que nasceu há 2 anos e meio pelo meio cirúrgico, não natural, e estou aqui pra dizer que: dói, cesárea dói e muito.

Dói a ideia de ter seu corpo invadido por instrumentos cirúrgicos, dói quando isso é feito sem qualquer respeito pelas vidas confiadas aos profissionais atuantes. Dói mais quando não é uma escolha e mais ainda quando se questiona pra sempre a necessidade disso. Dói e imagino que doa mesmo quando é comprovadamente necessária — já que isso significa algum problema sério a mudar os planos e roubar o romance do momento pelo qual mais se espera.

Dói também tudo o que vem depois — semanas de movimentos limitados e dor [porque se encher de boletas analgésicas não é a maneira mais adequada de se iniciar na amamentação]. Meses depois e a marca daquele corte que não precisava estar ali dói.

Dói assistir a outros partos, partos lindos, partos que permitem aquele momento sublime em que a mãe abraça seu filho recém-nascido e o recebe com ambos os braços livres e com calor, com todo calor que ele precisa e que ela guardou pra ele — e o põe no colo e oferece o peito e ele aceita ou dorme aconchegado ali, não num berçário, sozinho, por horas e horas e horas… ou dias.

Dói o furto da dor que não se teve — aquela que transforma, mãe e filho, a dor que não requer analgésicos e que termina assim que cumpre seu propósito: o de trazer a vida.

Uma cesárea quando vista de perto e sentida da forma como eu sinto a minha quando fecho os olhos e passo lentamente os dedos sobre a cicatriz profunda que ela deixou em mim… Dói — dói muito e sempre, sempre vai doer.

E só o amor cura...

E só o amor cura…

Meu relato de parto – por Ju Blasina

10 jan

NOTA DA MÃE-AUTORA: dois anos depois… E sinto a necessidade de atualizar meu relato de parto – coisa que farei em breve! É como se só agora eu tivesse me distanciado o suficiente para enxergar o quadro inteiro! Continuo achando ele feio… Continuo com minhas cicatrizes, mas agora aprendendo a lidar com elas – e tirar disso um ensinamento que precisa ser registrado. Então, querem ler essa versão limitada do meu relato, please, leve em consideração essa nota, ok? E aguarde a versão mais realista – ao estilo Laura Gutman de quem já tomou um chá com a própria sombra e sobreviveu – melhorada! Bjus


 

Nove meses passados, é chegada a hora… a hora de voltar lá, onde se guarda as mais importantes lembranças, e reviver essa que pode ser definida como ‘a melhor dentre as piores experiências que se pode ter na vida’ – por ser difícil, por ser dolorosa, por ser transformadora de uma forma que é inconcebível até que se esteja imersa nela. Pois bem, vamos lá:

31 março 2012
Passei a gravidez inteira convicta de que teria um parto normal. Li tudo o que podia sobre o assunto, convenci meu médico – que preferia a segurança da hora marcada de uma cesárea – e tranquilizei minha mãe – que tem traumas do parto que ela ‘sofreu’ para o meu nascimento. Pois eu queria tanto, tanto um Parto Normal que nem cogitei a cesárea – eis meu erro…

A gente tem que estar preparado pra tudo nessa vida!

Minha bolsa estourou cedo, cedo demais em todos os sentidos: eu estava com 36 semanas e 5 dias de gravidez e foi 5 min faltando para as 4 da manhã. Era um sábado e eu tinha trabalhado até as 21h daquela sexta – só pretendia sair de licença daí a duas semanas, afinal, eu tinha tempo… Nem minha bolsa [a das coisas secas] tava terminada, só a do bebê. Como acontece com a maioria das mães de primeira viagem, levantei da cama num pulo [tão ágil quanto meu barrigão gigantesco permitia] achando que tinha vazado xixi [o que não andava acontecendo, ok!? eu juro!] e escorreguei no líquido melecoso amniótico – quase caí.  Tremia que nem vara verde. Liguei para o meu médico e ele marcou comigo no hospital 6h depois, a menos que antes eu tivesse dor. Não tive!

Passei a madrugada antes do Dimi nascer mega zen, terminei a minha bolsa no improviso, tomei uns 10 banhos, sequei o cabelo no secador, me depilei, me maquiei [sim, como não!?]. Esperei amanhecer para avisar minha mãe, afinal, eu tava bem, não queria apavorar ninguém. Ela me buscou perto das 9h – e a água vazaaando- e ainda passamos no banco e na loja em que eu tinha encomendado a banheira – que não chegou a tempo! [impagável a cara da atendente da loja, quando eu disse a ela que, então, teria que comprar em outro lugar, já que eu estava a caminho do hospital para… parir! hehehe]. Naquela última noite, ao contrário do que é indicado, eu não dormi – a ansiedade era grande demais pra isso – curti muito os últimos momentos com o bebê do lado de dentro [só meu!] e dancei com a barriga… Dancei ouvindo The Black Keys. Dancei cantando Marisa Monte [“vem, ‘pr’esse mundo’, deus quer nascer – há algo invisível e encantado entre eu e você…”]. Dancei muito! Aí, qdo cheguei ‘lá’ [no hospital, na hora da verdade], toda faceirinha, e meu doc disse que teria que ser cesárea mesmo, e ‘pra já’, chorei mto… e dancei de vez!

Dois dias antes do 'showtime'

Dois dias antes do ‘showtime’

Passadas 6h perdendo líquido e, nenhum sinal de trabalho de parto: nada de dilatação, nenhuma contração, nada além de água, muita água melequenta e morninha – o bebê poderia entrar em sofrimento. Eu entendi – não tinha escolha. E então, eu chorei, chorei muito… Chorei tudo que eu não tinha chorado no primeiro ultrassom ou quando eu soube o sexo do bebê. Chorei enquanto me despia para encarar aquela ‘camisola’ horrorosa – e tudo o que vem com ela. Menos de 20 min desde que pus minha barriga no hospital, e lá estava eu, sozinha naquela porcaria de sala fria – ser moderninha-e-independente’ nessas horas é uma merda – fiquei nervosa, tive medo e me senti muito sozinha. Senti falta de uma mão que segurasse a minha, de um carinho qualquer, senti falta da minha mãe – mas ela estava cuidando de toda a burocracia para que eu pudesse logo ‘entrar na faca’ e, mesmo que não tivesse, ela já estava suficientemente nervosa do lado de fora – dentro da sala, nem eu queria estar!

Só uma enfermeira, entre as tantas ‘cabeças de paninho’ que eu estava pagando para que cuidassem bem de mim e do bebê, só uma foi um amor e conversou comigo, enquanto eu surtava de completo pavor, imaginando que a anestesia fosse acabar antes do esperado – jamais vou esquecer dela me dizendo que tinha passado por isso três vezes, deitada naquela mesa, e que, honestamente, não seria bom, seria estranho e assustador, que eu sentiria muitas coisas, mas que dor não seria uma delas! Ela me prometeu isso – e ‘cumpriu’ – ela fez toda a diferença! Para os outros, eu era uma coisa – mais uma dentre as tantas ‘coisas’ que eles abrem e tiram coisinhas de dentro, a todo momento. Lembro bem o assunto que rolava entre eles: facebook. Se pelo menos me adicionassem na conversa, eu talvez tivesse curtido.

Odiei fazer cesárea, odiei com todas as minhas forças aquela mesa em que parecem que estão sovando pão ou batendo roupa dentro da gente! O depois então… nem se fala [dor, dor, muita dor – de cabeça, na barriga… Inchaço de não calçar sapatos – pior que em toda a gravidez – e hematomas pra todo o lado, graças a mil injeções e soro e a violência que é todo esse processo], mas… o que se há de fazer? No meu caso, não foi uma escolha, e como se diz por aí, “tem males que vem pra bem”: Dimi enrolado na anaconda que era o meu cordão umbilical, se o parto fosse Normal, como eu tanto queria, sabe-se lá como seria… Assim que meu filhotinho deu seu primeiro choro, o médico disse “foi deus quem estourou essa tua bolsa, guria!” e a equipe toda soltou interjeições: eram cinco circulares de cordão, CINCO!!! O “bacana” é que eu fiz 11 ecografias durante o pré-natal, mas nenhuma 3D [uma vez que tudo parecia perfeitamente bem], e não se fazia a menor ideia disso!

Dimitri ao nascer, com seus míseros 47,5cm e 2670g

Dimitri ao nascer, com seus míseros 47,5cm e 2670g

Pior que tudo isso foi, depois de todo aquele tempo num só corpo, ter o bebê arrancado [o sentimento é esse] e levado pra longe: primeiro, para uma bancada fria na qual fuçam nele e nada dizem – e ele berrava e eu fazia perguntas ao vento [e chorava, chorava muito], ah, não fosse a anestesia tão  eficiente… Depois, a sala de recuperação, onde pessoas gemem, outras roncam e o reencontro com o bebê depende de se ‘poder com as próprias pernas’ [e as minhas custaram tanto a recuperar os sentidos que, horas depois, fui para o quarto ainda ‘sem elas’ e assim fiquei até anoitecer – só que junto ao bebê, o que melhora tudo ;]

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Resumindo: confirmei na pele o que eu sempre disse: se o corpo fosse feito para ser aberto, viria com zíper! Fora isso, foi um susto, tudo saiu fora do planejado, mas foi também a coisa mais maravilhosa do mundo ver aquele rostinho, tão pequeno e ao mesmo tempo tão forte, pela primeira vez!

Uma amiga minha que teve um bebezão de P.Normal me diz que se sentiu muito bicho durante o parto dela, pois eu me senti muito coisa no meu – é de se entender as mulheres que se tornam mais duras depois da maternidade – é o trauma do parto. É de se entender mais ainda a Depressão Pós-Parto – é um alívio que não atinja 100% dos casos.

Dias depois, eu olhava para o meu passarinho [porque o Dimi  era tão magrelo que parecia que ia quebrar] e dizia pra ele ‘tu tens que ficar muito bem e muito lindo pra que tudo isso compense, hein” – e ele ficou ;]

Num 31 de março de 2012: Dimi

Num 31 de março de 2012: Dimi

Que difícil falar dessas coisas… Nossa!

Obrigada por ter lido – é bom ter companhia dessa vez ;]

Bjus mil

JuB.

 

P.S.: uma lembrança [ainda mais] bizarra: Continue lendo

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