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Relato de parto semi-domiciliar, por Karoline Saadi

1 abr

“Amor, tu tens que parir um dia, é o melhor barato que existe!!!!” –

– Karoline Saadi, parindo Clarice, em 23 de março de 2015.

Hoje é 1º de abril, mas o que temos a oferecer é um presente muito verdadeiro!!!

Esse relato de parto ‘semi-domiciliar’ fala sobre luta, amor, determinação, o parto sonhado e o parto possível.

Só temos a agradecer a Karol por nos permitir compartilhar o relato dela aqui e as liiindas imagens de seu acervo pessoal – que tudo isso sirva de inspiração pra quem busca um empurrãozinho para ‘o lado do parto do bem’, como diz ela mesma.

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Por Karoline Saadi

Para comemorar a primeira semana de vida da Clarice, o relato do nosso nascimento:

Então em julho ficamos sabendo que traríamos um novo ser para habitar esse mundo.
E no meio ao turbilhão de emoções, uma coisa eu sempre soube: o dia que eu fosse gerar uma nova vida, ela chegaria de forma respeitosa e amorosa.

Muitos e muitos anos trabalhando com gestantes e bebês me fizeram ver muita criança nascendo de cesáreas, e essa era, definitivamente, uma coisa que eu não queria pra mim. Não conseguia assimilar aquele bando de mulher saudável fazendo cirurgia para gestações também saudáveis… Mas e agora??? Eu também tinha conhecimento sobre o sistema obstétrico brasileiro, sobre os médicos cesaristas, sobre a falta de interesse e vontade em seguir com o parto normal sem intervenções, sem pressa, respeitando o tempo da mãe e bebê… e iniciamos a saga: Continue lendo

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Relato de experiência com Higiene Natural

14 nov

Higiene Natural Infantil (ou Diaper Free)

é um método no qual os bebês são criados praticamente SEM USAR FRALDAS.

Parece um sonho, uma utopia, algo que a gente lê por aí [acredite ou não, 50% dos bebês no mundo são criados sem fraldas], mas que nunca conhece alguém que tento, e que ‘ueba! deu certo!’ na vida real… Bom, eu conheço! E ela não fez isso só uma, mas três bem sucedidas vezes! Pedi a essa amiga, essa mãe que eu tanto admiro, que nos contasse aqui como foi essa experiência, qual o segredo? E ela contou!!!

Aproveitem essa DICA DE OURO


 Relato de Anete Poll

Venho de uma criação alemã, onde tudo é feito de maneira metódica e sempre cheia de “dicas” que são passadas de geração para geração.

Tirando a parte culinária, os conselhos maiores sempre são em relação a maternidade e tudo o que a envolve. Pois bem, foi por conta desta criação, que meus filhos usaram fraldas somente os primeiros 45 dias.

Vou confessar. Não foi fácil. Não só pelo trabalho de observar o horário em que faziam cocô, mas o estresse das amigas cobrando “fases” que eu estava tirando dos meus filhos e que mais tarde iria prejudicá-los. Deixei pra lá e resolvi seguir os ensinamentos da minha mãe e da minha Oma (avó em alemão). Cheia de coragem, e entusiasmo, diga-se, começei a observar os horários.

O primeiro banho da manhã era sempre por volta das 8h. E sempre gostei de dar banho em uma bacia esmaltada branca, herança da minha Oma e na qual eu e minha irmã já havíamos sido banhadas. Logo nos primeiros dias já vi que esse era o horário e a preferência do meu primeiro bebê (hoje com 24 anos) para fazer cocô.

Não sei se era a água na temperatura ideal pra ele, ou se a massagem leve no corpinho. Mas sei que funcionava.

Depois do banho, deixava ele por uma hora mais ou menos, tranquilo, tirar uma sonequinha. Quando acordava, a primeira coisa era levá-lo para o xixi. Muito fácil. Eu sentava em uma cadeira de frente para o vaso (quando estava em casa) encaixava-o nos meus braços e… Pronto! Fácil, fácil.

O intervalo entre um xixi e outro, nunca controlei rigidamente. Me baseava pela quantidade de líquidos ingerido (parece loucura né?).

O outro cocô era logo após as 13h. Também horário do banho, o primeiro da tarde. E era tranquilo. Lá pelas 16h era outro.

Quando eu viajava, o método era o mesmo. A bacia branca ia junto. Posto e hotel viravam o banheiro do meu filho. Depois de três ou quatro meses, vira rotina e não tem quem não tira de letra. Mas isso não quer dizer que ele nunca sujou uma roupinha. É claro que sim. Tanto eu quanto ele não éramos experientes nesta “coisa” de mãe e filho. Mas fui em frente.

Essa foi uma das maiores experiências maternas da minha vida. E sempre que divido com amigas, elas acham que bebê faz coco a toda hora e que é impossível controlar. Mas, como sou geminiana e tenho sempre uma explicação na ponta do cérebro. Explico para as mães de primeira viagem:

Põe uma fralda em você e fica deitada (no máximo sentada) o dia inteiro, com a bunda achatada em uma fralda (que por sua vez está achatada em um colchão, em bebê conforto, em um moisés, em uma cadeirinha de segurança e até no braço) e tenta fazer cocô. É lógico que vai sair um pouquinho de cada vez. Agora, tira a fralda. Viu???? De uma vez só.

Os conselhos de mãe e avó, ah… esses, sim, são infalíveis.

Anete, Cristiano e Gabriel

Anete e Be

Anete Poll é jornalista, mãe de Cristiano 25, Gabriel 24 e Bernardo 12.

 


Vale também dar uma olhada nesse vídeo da Mamatraca: Movimento dos #SEMFRALDA

Mais sobre: Dê uma pesquisada no trabalho das autoras Ingrid Bauer e/ou Christine Gross-Loh.

Parte 2: Meu tão sonhado Parto Domiciliar (nascimento da Giulia) – por Ma Morini

7 nov

E na segunda feira, 15 de setembro, acordamos eu e Pietro, estranhos. 38 semanas e 1 dia de gestação.

Saquei uma energia diferente no ar. Sabia que algo aconteceria e desconfiava muito que poderia parir naquele dia. Nossa rotina básica não se encaixou nesse dia. Estávamos aéreos.

Tinha feito as unhas no sábado, ja pensando que o parto se aproximava. Escolhi um esmalte lilás nas unhas, alias, eu passei quase toda gestação em sintonia com essa cor. Capa da almofada de amamentação, soutien de amamentação, tudo nesse tom. E entrei numa parada de comprar flores pra casa. Cada ida a feira, era um vasinho que eu trazia.

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Aproximadamente as 10 horas, enquanto trocava a fralda do Pi, me movimentei na cama de um jeito que forçou a musculatura da pelve. Nessa hora senti descer alguma coisa. Fui ao banheiro e era um líquido limpido. Pouco liquido. Nesse momento, gelei e deixei o iPad cair, que estava em uma mesinha no banheiro. Trincou a tela e com certeza aquilo foi mais um sinal, eu ia parir aquele dia.

Liguei pra parteira Karina e ela me disse que talvez a bolsa havia se rompido de forma alta. Porque eu perdia liquido numa quantidade muito leve e não saía o tempo todo. Ela pediu que eu a informasse caso surgisse a primeira coliquinha e se tivesse contrações. Ela ainda brincou dizendo que ficava com a pulguinha atrás da orelha comigo, porque o parto do Pietro evoluiu rapidinho, e o da Giu poderia ser mais rápido ainda.

Ao meio dia eu tive a primeira coliquinha, mas não contei pra ninguém.

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As segundas feiras eu costumo levar Pi numa senhorinha pra benzer. E nesse dia não seria diferente. Fomos e minha barriga também foi benzida. Saí de lá super pronta pra parir. Me sentindo iluminada, abençoada, forte.

Umas 14h, avisei a Ka que estava com cólica fraca, contrações idem e que eu estava super de boa. Por precaução, ela pediu a Thaís que viesse me ver.

Passei a tarde vendo Call The Midwife, dando atenção ao Pi e ajeitando umas coisinhas. Fiz mala da maternidade (caso precisasse do plano B), lavei louça, guardei as coisas para o PD em uma gavetona (toalhas e lençóis lavados e passados, absorvente pós parto, calcinha decartavel, lençol descartável, bolsa de água quente, peneira, etc), fiz chá de calêndula com camomila e coloquei em forminhas de gelo (pra usar no períneo no pós parto) e deixei todos os exames da gestação, documentos e plano de parto em um envelope em cima da mesa.

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Aí marido liga. Contar ou não contar que a parteira iria em casa me examinar? Poderia ser só os pródromos e eu ia preocupá-lo a toa. Contei. Mas pedi que ficasse em paz, de boa, que se nascesse, seria a noite.
Até parece que ele ficou de boa. Saiu da empresa e veio pra casa. No meio do caminho me liga, lembrando que estava no rodízio. Haha
Dias depois a multa chega 😒

As 18h Thaís chega e decidimos fazer um exame de toque. No grau baixo de dor que eu estava, achava que estaria com 1cm ou nada. Para minha surpresa, 4cm 😄 É, eu estava em total sintonia com meu corpo. Íamos conhecer nosso bebe muito em breve.

Fui fazer café e deixar coisinhas de comer na mesa, pra mim e pra todo pessoal. Amamentei Pietro. Marido chega. Vou pra bola. Altos papos com a Thais, sobre a filhinha dela, sobre a gestação, sobre o tempo, sobre a vida. Amamento Pietro. Marido infla piscina. Fica ansioso. Eu dou alguns coices no pobre. Peço que ele fique de boa. Ressalto que poderei virar o bicho quando as contrações mais fortes chegar. Amamento Pietro. Dores aumentam um pouquinho. Amamento Pietro. Recebo massagem do marido, enquanto Pi brinca pelado, entrando e saindo da piscina. Ligo pra fotógrafa. Dores aumentam. Karina chega. Lela fotógrafa chega.

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Tudo estava caminhando tranquilamente, mas tem que ter um momento de caos, se não não tem graça.
Pietro acompanhava tudo de perto, se divertiu em encher a piscina, em nadar, em ficar pelado. Ficou a vontade com as meninas e encantado com a maquina fotográfica da Lela. Ele sabia que aquilo tudo era pro nenê nascer. Ele viu muitos videos de nascimento comigo.

Só que aí o menino cansou de esperar. Chegou no limite dele. Estava exausto. Cansado. Querendo a rotina dele, a mamãe com a teteta, deitados na cama, de pijaminha, prontos pra dormir. Só que onde eu estava? Eu estava na piscina, tendo contrações fortíssimas, com dilatação total, na partolândia minha amiga.

Pietro começa a chorar desesperadamente. Renato não consegue, de jeito nenhum, fazer Pietro dormir. Chamei Pi pra ficar comigo na agua, dei peito la dentro e ele chorava e pedia para deitarmos na cama dele. Saí da piscina e amamentei o menino no sofá. Ele fechou o olho, dormiu e logo em seguida me veio uma contração ferrada, no mesmo instante eu desplugo Pi do peito e peço que Renato o chacoalhe. Mas aí Pi acorda e começa todo o desespero novamente.

Volto pra piscina e ordeno que Renato faça o filho dormir. Eu escutava o choro dele, olhava pras meninas, me concentrava, xingava Renato por dentro, por não conseguir acalmar o menino. Escutava Pietro tacando as coisas no chão e sentia a agonia, o desespero e a solidão dele. Eu sentia o mesmo e ficava imaginando como seria cuidar de dois filhos. Ele ainda tão pequeno e tão dependente de mim.

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Mais uma vez eu decido sair da piscina. Discuto com Renato e por fim, deito na cama com Pi. Todos saem de perto e nos deixam a sos. Tenho contrações fortissimas, daquelas que não se encontra mais posição confortavel. Pietro dorme. Desplugo ele do peito com muito cuidado pra tudo não se repetir e consigo. Respiro aliviada por um instante, até outra contração me tomar conta.

Levanto da cama dele e vou pro meu quarto. Nessa hora vejo um sangue bonito escorrer pelas minhas pernas. As meninas ajeitam tudo por lá. Sinto um calor infernal. Marido me abana com um leque salvador. Nesse momento já estou totalmente sem roupas. Nem aí pra aparência, em quem me via ou não. Alias, não consigo me lembrar em que momento tirei os oculos, o Japamala do pescoço, que tanto me deu força, presente especial da amiga Ju 💚. Não me lembro em que momento tirei o top. Total partolandia.

Em minha cama não encontro posição. Como doí, eu tinha me esquecido. A Ka pergunta se quero voltar pra piscina e eu topo. Lá vamos nós outra vez ajeitar tudo na sala. Entro na água. Recebo massagens incríveis da Ka. Ela joga agua na minha barriga tambem. Quanto cuidado. Eu só queria parir logo.

O parto de uma girafa não saía da minha cabeça. Esse parto aqui. Quando conversava não conseguia concluir o raciocínio. Na cabeça passavam muitas coisas. Muitos sentimentos de uma só vez. Não tinha palavras pra aquilo tudo. Ficava mentalizando o bebe passando, o útero se abrindo, tudo se abrindo. Rezava. As vezes minha vontade era ficar com as pernas fechadas. Mas aí me lembrava que precisava me abrir, que para toda aquela dor parar, o bebe tinha que nascer.

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E aí no meio dessa confusão toda de sentimentos e pensamentos, sinto a cabeça do bebê pressionando. Tudo começa a queimar. Solto uns gritos. Digo que tá doendo. Alguém me diz para colocar a mão e sentir a cabecinha. Coloco a mão e como uma criança desapontada, digo chorosa que não sinto ainda a cabeça. Mais uma contração e a vontade de fazer força surge. Na minha cabeça uma confusão entre fazer força ou não, deixar vir naturalmente ou forçar? Escolho fazer força e a cabecinha, finalmente nasce. Escuto o chorinho ❤️

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Com o corpinho ainda dentro de mim, ela já chorava. Anunciando ao mundo sua chegada.
A posição que melhor encontrei foi a de quatro apoios na piscina. Ela nasceu metade dentro, metade fora d’água. As mãos do pai e da Thaís a recepcionaram.

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Como havia pedido, ninguém me contou se era menino ou menina, eu queria ver com meus próprios olhos. O pai ja sabia que era nossa menininha.
Me virei, pulei o cordão umbilical e pude constatar e me emocionar e chorar e finalmente pegar minha pequena no colo. Nossa Giulia. Nome escolhido pelo irmão.

Era terça feira, dia 16 de setembro de 2014. As 00:55h.

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Continua…

Apenas um relato sobre a ‘dor de parto’

29 set

Cesárea dói.

Engana-se quem pensa que não, quem opta por uma por medo da tão famosa ‘dor do parto’, o normal.

Eu sou Ju Blasina, uma das autoras do blog Andogestando, poeta, bióloga, mãe do Dimi, que nasceu há 2 anos e meio pelo meio cirúrgico, não natural, e estou aqui pra dizer que: dói, cesárea dói e muito.

Dói a ideia de ter seu corpo invadido por instrumentos cirúrgicos, dói quando isso é feito sem qualquer respeito pelas vidas confiadas aos profissionais atuantes. Dói mais quando não é uma escolha e mais ainda quando se questiona pra sempre a necessidade disso. Dói e imagino que doa mesmo quando é comprovadamente necessária — já que isso significa algum problema sério a mudar os planos e roubar o romance do momento pelo qual mais se espera.

Dói também tudo o que vem depois — semanas de movimentos limitados e dor [porque se encher de boletas analgésicas não é a maneira mais adequada de se iniciar na amamentação]. Meses depois e a marca daquele corte que não precisava estar ali dói.

Dói assistir a outros partos, partos lindos, partos que permitem aquele momento sublime em que a mãe abraça seu filho recém-nascido e o recebe com ambos os braços livres e com calor, com todo calor que ele precisa e que ela guardou pra ele — e o põe no colo e oferece o peito e ele aceita ou dorme aconchegado ali, não num berçário, sozinho, por horas e horas e horas… ou dias.

Dói o furto da dor que não se teve — aquela que transforma, mãe e filho, a dor que não requer analgésicos e que termina assim que cumpre seu propósito: o de trazer a vida.

Uma cesárea quando vista de perto e sentida da forma como eu sinto a minha quando fecho os olhos e passo lentamente os dedos sobre a cicatriz profunda que ela deixou em mim… Dói — dói muito e sempre, sempre vai doer.

E só o amor cura...

E só o amor cura…

Papo de pai #2: Pais Eternos

8 ago

Por João Rodrigo Souza Leão

A respeito de ser pai, uma das únicas certezas é ter a mente repleta de dúvidas, pois toda vez que olho meu filho só vejo perguntas:

Será que ele será uma pessoa do bem? Será que ele terá uma profissão digna? Será que aprenderá com sabedoria meus ensinamentos? Ele será tolerante com os outros? Me ouvirá quando crescer? Será que minhas palavras servirão de conforto nas horas menos felizes?

Esse mar de perguntas é às vezes esquecido nos momentos de prazer ao dividir com ele a cama no dias frios fornece-lo calor e aconchego. Ao alimentá-lo e ver que os seus olhinhos não desgrudam dos meus. Ao ouvi-lo balbuciar as primeiras palavras desconexas, mas cheias de significado. Ou ainda ao vê-lo ensaiar os primeiros passos sem firmeza seguidos das primeiras quedas.

Na obra autobiográfica “O filho Eterno”, do escritor Cristóvão Tezza, o autor relata sua experiência de ser pai de um filho com Síndrome de Down. O título da obra sinaliza que os desafios e angústias deste e de outros pais são contínuos e duradouros, pois crianças com tal necessidade especial tendem a consumir mais tempo e dedicação de seus pais. O autor relata as batalhas, as lutas e ainda cada pequena conquista e vitória alcançada por seu filho. Segundo o autor, seu filho será um filho eterno.

O Filho Eterno, Cristovão Tezza. Editora Record, 2007

O Filho Eterno, Cristovão Tezza. Editora Record, 2007

Muitos papais enfrentam ainda a angústia de serem os provedores de conforto e segurança. E isso, encurtando a história, exige dinheiro. Embora a felicidade junto dos filhos não dependa somente disso, os pais travam uma luta silenciosa a cada jornada de trabalho a cada desafio financeiro e a cada revés monetário. Homens não falam muito de seus problemas e muitas vezes guardam essas incertezas internamente. E muitas vezes, por serem também “meninos”, acabam por transformar problemas em brincadeiras, tristezas em fantasias.

O que faz de nós papais?

O simples fato de engravidarmos uma mulher? O ato de criar os pequenos e adoráveis bebês? Ou será que já nascemos papais e tudo isso seja fruto do instinto? Será que está tudo nos genes, como sugere o renomado biólogo Richard Dawkins em seu aclamado Best Seller “O Gene Egoísta”?

Talvez não seja nada disso.

Eu, particularmente, me tornei pai no momento que soube da gravidez de minha esposa. Outros papais viram papais aos poucos, ao longo dos nove longos meses de gestação. O importante é descobrir que aquele pequeno ser depende muito do bem estar e da segurança que o papai proporciona ao lar e à família.

Muitos tornam-se papais porque querem a continuidade de sua linhagem. Outros ainda, referem-se à necessidade de ter alguém na velhice que os ampare. Talvez a mais bela definição da paternidade seja a que William Sheakespeare relata em seu soneto número 12:

“Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;

Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia a sobra franca
E em feixe atado agora o vejo trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;

Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono

Morrem ao ver nascer a graça nova.
Contra a foice do tempo é vão combate
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.”


Fica evidente que segundo Sheakespeare a única maneira de vencer a morte é a procriação, fazer cópias de si mesmo. Mas será que somos apenas isso? Meros replicadores? Simples máquinas de copiar genes? Ou será que a investida dos papais é algo maior? Um exercício de carinho? Ou ainda a própria definição do amor?
 –
Talvez as respostas sejam complexas demais.
Pode ser que elas nem existam. Pode ser também que elas sejam desnecessárias frente ao zelo e ao cuidado que os papais tem com seus filhotes.

 –

Existem pais que não precisam de rótulos ou definições, pois atuam como se tivessem nascido para a paternidade.

Apenas não carregaram os pequenos em seus ventres porque a natureza e a evolução negou isso a eles. Muitos papais colam seus rostos nas carinhas dos seus bebês e sentem o cheiro de sues filhos. Outros pressentem e evitam o perigo; amparam com carinho os seus pequenos. E mesmo depois que estes crescem, o carinho continua o mesmo.

São papais eternos.

 

Talvez ser pai seja mesmo muito complexo, mas a própria natureza nos dá lições de reciclagem, de vida e renascimento.

As estrelas, por exemplo, tem um ciclo de vida. E no final, ao esgotarem o combustível de seus núcleos em chamas, algumas explodem em espetaculares supernovas. O produto da morte estelar é um meio rico em novos elementos químicos que dará origem, no tempo certo, às novas gerações de estrelas.

 

Talvez a missão dos papais seja mesmo essa:

Ensinar o que puderem aos seus pequenos, amá-los infinitamente e após um certo tempo imitarem as estrelas, cedendo lugar a uma nova geração, ainda mais rica, observando que seus filhos finalmente cresceram!

 

Cabe a nós papais termos a certeza de que nossos filhos, um dia, possuirão brilho próprio e iluminarão nossas vidas,

como as estrelas do céu.

 

João pai e João filho

João pai e João filho

João Rodrigo Souza Leão nasceu no Rio de Janeiro, mas mora no sul do Brasil desde sempre. Escolheu a física e a astrofísica como profissão, mas não esquece a literatura e paixão pelas artes. No dia a dia estuda a composição química de galáxias, mas também escreve contos, poemas e crônicas. Atualmente vem aprendendo a ser o papai do Joãozinho, que tem lhe mostrado outras janelas para o vasto universo interior constituído pela mente e pelas percepções humanas. Contato e outros textos do autor, você encontra  em:

Papo de pai #1: Ano Um

6 ago
Costumamos dizer que esse blog fala sobre ‘maternagem’, pois nós, autoras,  somos mães, portanto falamos dos anseios e jeitos de esperar, parir e criar filhos como mães que somos, não poderia ser diferente. Mas, na verdade, esse blog é mais que isso – é um blog sobre criação com apego, sobre alimentação saudável, sobre brincar na rua, sobre mais criatividade e menos consumismo, sobre…
…criar filhos da melhor maneira que se pode criá-los.
E isso não é coisa de mãe. É coisa de quem cria filhos!
Isso é coisa de pai tanto quanto é de mãe!
 –
E como será que funciona pra eles? Será que tem diferença?
Isso só um pai poderia responder…  então convidamos alguns amigos pais – pais presentes, pais apaixonados, pais reais – para que eles nos falassem um pouco, cada um a sua maneira, das coisas da paternidade. E em agosto, mês dedicado a eles [ok, data comercial, blá blá blá… mas pode ser usada para o bem!] o AG abre espaço para o Papo de Pai – que começa agora e com um texto muito especial, não por ser o primeiro, mas por ser lindo, por ser forte, por ser real – obrigada, Henry, por nos trazer isso!
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Ano Um
Por Henry Alfred Bugalho

Nunca entendi bem porque as pessoas põem filhos neste mundo fodido. Principalmente porque boa parte dos problemas é causado pelas próprias pessoas.

Irresponsáveis criando mais irresponsáveis.

Nunca entendi bem, e passei a entender menos ainda depois de ter o meu próprio filho.

Por que fazemos isto? Qual é o sentido essencial deste ato? O que esperamos disto?

Já concluí que estas são questões falsas. Não podemos esperar sentidos essenciais para nada.

Os sentidos são criados. Nós os criamos. Nós temos de inventar os porquês.

Dizem (Lacan, suponho) que uma mulher se torna mãe no momento em que descobre a gravidez, enquanto o homem só se torna pai quando o bebê nasce.

Isto me parece natural.

A mulher não tem como tirar se si todas as transformações, os enjoos, a fadiga, a barriga crescendo, as posições incômodas para dormir, os chutes nas costelas e os soluços do feto. Está dentro dela.

Bebê e mãe são um só.

O pai é um espectador. Foi convidado para a festa, mas tem de vê-la do lado de fora.

A realidade da paternidade só desaba sobre os ombros do pai quando o bebê sai, chorando e tremendo, e nas noites sem sono que se seguem.

O pai nasce junto com o filho.

“O parto é um milagre; uma prova da nossa centelha divina”.

Quantas vezes já não ouvi algo semelhante expresso com outras palavras?

Para mim, assistir ao parto do meu filho foi a maior evidência da nossa natureza animal. É realmente um milagre, mas sem nenhuma relação com entidades supremas. É tão miraculoso e extraordinário quanto uma borboleta abrindo suas asas pela primeira vez após seu tempo no casulo.

Este é o nosso contato mais íntimo com todos os demais mamíferos; é o nosso vínculo com todas as demais criaturas vivas que subjugamos ou exterminamos.

O bebê nasce e, em contato com a pele da mãe, ameaça engatinhar, arrastando-se centímetros em direção ao peito.

Quão frágil somos neste instante, a mais dependente de todas as criaturas do planeta nesta primeira etapa! Sentimos medo de machucá-lo, como se fosse frágil e quebradiço.

Ele dorme, mas não queremos deixá-lo à sós nem um segundo.

Tão pequenininho e indefeso…

Os três primeiros meses parecem ser intermináveis. É como se houvéssemos ganhado um bonsai.

Um bonsai que chora, caga, mama e precisa de atenção vinte e quatro horas por dia.

Já tivemos um bonsai antes, que morreu em poucos dias. Esquecíamos de regá-lo e de pô-lo para pegar sol.

Se chorasse, cagasse e mamasse, talvez o nosso bonsai ainda estivesse conosco.

Os três primeiros meses são a prova de fogo, ou como dizem os americanos, o momento do “make it or break it”.

Creio que pais nenhuns se recuperam deste começo, que nunca mais voltam a dormir como antes, que nunca mais ouvem um choro se disparar alguns alarmes no cérebro.

O bebê tem tanta coisa para aprender, mas os pais também.

E não há atalhos.

Então ele começa a rir e a interagir. O bonsai vira gente.

Os primeiros meses de um bebê, que podiam muito bem ser usados pela CIA como estratégia de privação de sono para interrogar prisioneiros, dão lugar aos primeiros instantes realmente divertidos.

Quase todos os dias há uma surpresa, uma coisa nova que o bebê passou a fazer, que aprendeu sabe-se lá como. É uma máquina de aprendizado e nos faz indagar como deve ser incrível ver tudo pela primeira vez.

Estamos tão calejados que muitas vezes não percebemos como a vida é fantástica e singular. No entanto, para o bebê tudo é novidade: a bolinha, o cachorro, as pessoas, as luzes, as músicas, as sensações, os sabores.

Tudo está acontecendo pela primeira vez. E dá aquela inveja boa de poder se espantar uma vez mais diante de tudo.

O artista é um bebê que jamais deixou de se surpreender.

Há momentos em que os pais sentam-se num canto e dizem, com as mãos na cabeça: “Não posso mais…”

Há outros em que eles se abraçam e riem juntos vendo o filho: “Por que esperamos tanto tempo para vivermos isto?”

E há também quando estes dois sentimentos ocorrem simultaneamente.

Presenciamos muito a cena de pais sozinhos com seus bebês aqui na Espanha.

Não há esta divisão entre o que é papel da mãe e do pai, excetuando por limitações fisiológicas incontornáveis. Todavia, se um dia descobrissem uma técnica que permitisse ao pai dar o peito, penso que os espanhóis fariam sem titubear.

Ficaria feliz se meu filho crescesse num ambiente assim, onde o pai não é somente aquele que paga a conta.

Ser pais é trabalho em tempo integral. Trabalho para os dois.

Sem nos darmos conta, já se passou quase um ano. O bebê, que era tão dependente e estático, agora não para quieto um segundo. Tem tudo para descobrir e, se ele tiver sorte, sempre agirá desta maneira, percebendo o mundo como um local para ser explorado.

A grande aventura da vida.

Não tive pai. Ele morreu quando eu tinha apenas seis anos. Sempre ouvi que ele era um bêbado e um vagabundo.

Hoje, acredito que era apenas uma pessoa que precisava de ajuda, numa época em que isto era somente vadiagem.

Não sou um bêbado nem um vagabundo. Quero que meu filho se lembre do meu rosto e saiba quem eu fui de verdade. Quero estar ao lado dele em seus momentos mais felizes; quero que ele possa chorar no meu ombro as suas derrotas. Quero me orgulhar dele, independentemente de suas escolhas, e quero que ele se orgulhe dos pais que teve.

Não é pedir muito.

Estamos fazendo escolhas difíceis. Escolhas que influenciarão toda a vida dele, que poderão dar muito certo ou muito errado, das quais poderemos nos arrepender um dia.

Mas quais pais não têm tais inquietações?

A grande lição que o nosso filho aprenderá, se não conosco, certamente ao longo de seus sucessos e dissabores, é que toda escolha é delimitadora.

Escolher é renunciar a todas as demais opções. Ser livre é fazer sacrifícios.

Escolhemos estar ao seu lado.

Henry e Phillipe

Henry e Phillipe

Phillipe e Henry

Phillipe e Henry

Henry é curitibano, formado em Filosofia, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor de romances, novelas, coletâneas de contos e guias de viagem. Editor da Revista SAMIZDAT e fundador da Oficina Editora. Morou em Nova York, Buenos Aires, Itália, Portugal e está baseado, atualmente, em Madri, com sua esposa Denise, o bebê Phillipe e Bia, sua cachorrinha.

Vale dizer também que o nascimento do Phillipe já foi contado aqui, por sua mãe, Denise Nappi – é só clicar para ler;]

 

 

E aí o pai encontra esse achado…

14 jan

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…escrito 3 meses antes do Pi nascer.

“Filho, seu mundo deve ser gostosinho.
Tem um gabirrão, que mais parece um aquário, para acomodar você. Tem alimento o tempo todo. A mãe é calma.
Aqui em casa já tem seu irmão esperando. Você vai notar que ele tem tração nas quatro rodas (e nós – sua mãe, seu pai e você – só em duas), dorme mais de 12 horas todo santo dia e fala só com os olhos e com as patas. Ele late, mas é bem medroso. Tem voz de Nelson Gonçalves, mas na hora agá ele é baitolinha – o amigo ideal para você, pois é quase uma pelúcia. Tem um bafo esquisito, mas com isso aí você acostuma (o bafo do pai, quando come alho e cebola, fica parecido).
Quando você vier para cá, vai sentir saudades aí de dentro e vai chorar. Não faz mal, isso passa. Depois a gente fica velho e guarda no subconsciente uma recordação daqueles 9 meses de serenidade que viveu no gabirrão.
Filho, vem logo, mas vem no tempo certo, tá? Estamos esperando você, nós três.”

Por Renato Maluf

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