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Parte 1: Meu tão sonhado Parto Domiciliar (Nascimento da Giulia) – por Ma Morini

16 out

E ela foi concebida na madrugada de reveillon, no primeiro dia do ano de 2014, com muito amor e consciência.

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Que diferença de uma gestação pra outra (a gente compara, não tem jeito). Nessa, já engravidei bem mais magra, embora tenha engordado 20kg em ambas. Minha cabeça era outra, estava muito mais informada, muito mais empoderada, muito mais madura, sábia, atenta ao meu corpo, mais confiante nele e na natureza, mais ativa, serena, com cabelos lindos (do jeito que ele nunca foi), sem inchaços (nem no fim fiquei inchada, isso é um milagre), pele boa e quase nada ansiosa.

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Logo que soube da gravidez já sabia que seria parto domiciliar e não hospitalar, como conto aqui como foi o do Pietro. Sempre falava pro marido que se eu engravidasse, nasceria em casa e ela nasceu 😍
Procuramos um grupo de Apoio a Maternidade Consciente (esses grupos de apoio são essenciais para quem procura um parto normal, natural, humanizado, respeitoso, seja domiciliar ou hospitalar).
Escolhemos a ComMadre, porque sabia que a Ka Trevisan atendia lá e como ela tinha me dado aula no curso de doula, super estava simpatizada.

Passei também em consultas com uma obstetra do meu plano de saúde, escolhi a mais próxima de casa, só para ter as guias dos exames e faze-los pelo convênio (porque não dá pra fazer todos os mil exames de um pré natal pelo particular). Sabemos que é impossível ter um parto natural através dos convênios médicos 😪
NÃO recomendo que façam isso, a não ser que se esteja muito segura de suas escolhas para parir.
Dei sorte em não ter pego uma medica que me indicaria cesárea a todo custo, que me botasse medo e sei lá mais o que. Nunca conversamos sobre os meios de nascimento e isso pra mim foi ótimo, porque não precisei contar que ela não seria minha obstetra na hora do parto. As consultas eram rápidas e ela nunca me fez um exame de toque sequer.
Passei com ela até 35 semanas.

Pietro foi comigo em todas as consultas. Com a parteira, com a GO, nos exames todos e isso foi muito importante pra ele se sentir inserido nesse novo momento e pra entender que em breve teria mais um membro na familia. E também pra ficar a vontade com a parteira, que afinal estaria em casa no momento do nascimento da irmã.

Escolhi não saber o sexo. Queria passar por essa experiência, de só saber se era um menino ou uma menina, na hora do nascimento. Nos relatos que li e que fizeram assim, a emoção era enorme. E foi muito importante pra mim tratar e amar meu filho no ventre, sem rótulos, sem gênero. Apenas amar e aceitar.

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Amamentei Pietro a gestação toda e nunca tive sangramento, nem ameaça de parto prematuro em nenhum instante. Constato que isso é besteira, que pode sim amamentar gestando (se já fazia isso antes, o corpo está acostumado com a carga de ocitocina que recebe).

Optei em não ter doula, por alguns motivos… 1. porque viriam em casa duas parteiras, a Ka e a Thaís Bernardes (elas não são doulas, são parteiras, mas sabia que estaria muito bem amparada), 2. pra economizar grana pra pagar a fotógrafa, 3. porque eu estava muito segura em parir e 4. porque ensinei ao marido algumas massagens, dava pra ele quebrar um galho.

Mas eu SUPER recomendo que tenham uma doula no parto e também no pós parto. Se tivesse mais condições financeiras na época em que a Giu nasceu, eu teria contratado, com certeza.
Pesquisas mostram que o parto em que uma Doula está presente tende a ser mais rápido e necessitar de menos intervenções médicas. Algumas vantagens em se ter uma Doula na hora do parto:

· Diminui o uso do fórceps em 40%
· Diminui insegurança da mãe, ocasionando um maior autocontrole e menos dor
· Reduz o risco da depressão pós-parto
· Sucesso na amamentação
· Maior auto estima da mãe
· Maior satisfação com relação ao parto
· Diminui as taxas de cesárea em 50%
· Diminui a duração do trabalho de parto em 20%
· Diminui o uso da Ocitocina (indução de parto) em 40%
· Diminui os pedidos de anestesia em 60%

…continua

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Papo de pai #2: Pais Eternos

8 ago

Por João Rodrigo Souza Leão

A respeito de ser pai, uma das únicas certezas é ter a mente repleta de dúvidas, pois toda vez que olho meu filho só vejo perguntas:

Será que ele será uma pessoa do bem? Será que ele terá uma profissão digna? Será que aprenderá com sabedoria meus ensinamentos? Ele será tolerante com os outros? Me ouvirá quando crescer? Será que minhas palavras servirão de conforto nas horas menos felizes?

Esse mar de perguntas é às vezes esquecido nos momentos de prazer ao dividir com ele a cama no dias frios fornece-lo calor e aconchego. Ao alimentá-lo e ver que os seus olhinhos não desgrudam dos meus. Ao ouvi-lo balbuciar as primeiras palavras desconexas, mas cheias de significado. Ou ainda ao vê-lo ensaiar os primeiros passos sem firmeza seguidos das primeiras quedas.

Na obra autobiográfica “O filho Eterno”, do escritor Cristóvão Tezza, o autor relata sua experiência de ser pai de um filho com Síndrome de Down. O título da obra sinaliza que os desafios e angústias deste e de outros pais são contínuos e duradouros, pois crianças com tal necessidade especial tendem a consumir mais tempo e dedicação de seus pais. O autor relata as batalhas, as lutas e ainda cada pequena conquista e vitória alcançada por seu filho. Segundo o autor, seu filho será um filho eterno.

O Filho Eterno, Cristovão Tezza. Editora Record, 2007

O Filho Eterno, Cristovão Tezza. Editora Record, 2007

Muitos papais enfrentam ainda a angústia de serem os provedores de conforto e segurança. E isso, encurtando a história, exige dinheiro. Embora a felicidade junto dos filhos não dependa somente disso, os pais travam uma luta silenciosa a cada jornada de trabalho a cada desafio financeiro e a cada revés monetário. Homens não falam muito de seus problemas e muitas vezes guardam essas incertezas internamente. E muitas vezes, por serem também “meninos”, acabam por transformar problemas em brincadeiras, tristezas em fantasias.

O que faz de nós papais?

O simples fato de engravidarmos uma mulher? O ato de criar os pequenos e adoráveis bebês? Ou será que já nascemos papais e tudo isso seja fruto do instinto? Será que está tudo nos genes, como sugere o renomado biólogo Richard Dawkins em seu aclamado Best Seller “O Gene Egoísta”?

Talvez não seja nada disso.

Eu, particularmente, me tornei pai no momento que soube da gravidez de minha esposa. Outros papais viram papais aos poucos, ao longo dos nove longos meses de gestação. O importante é descobrir que aquele pequeno ser depende muito do bem estar e da segurança que o papai proporciona ao lar e à família.

Muitos tornam-se papais porque querem a continuidade de sua linhagem. Outros ainda, referem-se à necessidade de ter alguém na velhice que os ampare. Talvez a mais bela definição da paternidade seja a que William Sheakespeare relata em seu soneto número 12:

“Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;

Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia a sobra franca
E em feixe atado agora o vejo trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;

Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono

Morrem ao ver nascer a graça nova.
Contra a foice do tempo é vão combate
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.”


Fica evidente que segundo Sheakespeare a única maneira de vencer a morte é a procriação, fazer cópias de si mesmo. Mas será que somos apenas isso? Meros replicadores? Simples máquinas de copiar genes? Ou será que a investida dos papais é algo maior? Um exercício de carinho? Ou ainda a própria definição do amor?
 –
Talvez as respostas sejam complexas demais.
Pode ser que elas nem existam. Pode ser também que elas sejam desnecessárias frente ao zelo e ao cuidado que os papais tem com seus filhotes.

 –

Existem pais que não precisam de rótulos ou definições, pois atuam como se tivessem nascido para a paternidade.

Apenas não carregaram os pequenos em seus ventres porque a natureza e a evolução negou isso a eles. Muitos papais colam seus rostos nas carinhas dos seus bebês e sentem o cheiro de sues filhos. Outros pressentem e evitam o perigo; amparam com carinho os seus pequenos. E mesmo depois que estes crescem, o carinho continua o mesmo.

São papais eternos.

 

Talvez ser pai seja mesmo muito complexo, mas a própria natureza nos dá lições de reciclagem, de vida e renascimento.

As estrelas, por exemplo, tem um ciclo de vida. E no final, ao esgotarem o combustível de seus núcleos em chamas, algumas explodem em espetaculares supernovas. O produto da morte estelar é um meio rico em novos elementos químicos que dará origem, no tempo certo, às novas gerações de estrelas.

 

Talvez a missão dos papais seja mesmo essa:

Ensinar o que puderem aos seus pequenos, amá-los infinitamente e após um certo tempo imitarem as estrelas, cedendo lugar a uma nova geração, ainda mais rica, observando que seus filhos finalmente cresceram!

 

Cabe a nós papais termos a certeza de que nossos filhos, um dia, possuirão brilho próprio e iluminarão nossas vidas,

como as estrelas do céu.

 

João pai e João filho

João pai e João filho

João Rodrigo Souza Leão nasceu no Rio de Janeiro, mas mora no sul do Brasil desde sempre. Escolheu a física e a astrofísica como profissão, mas não esquece a literatura e paixão pelas artes. No dia a dia estuda a composição química de galáxias, mas também escreve contos, poemas e crônicas. Atualmente vem aprendendo a ser o papai do Joãozinho, que tem lhe mostrado outras janelas para o vasto universo interior constituído pela mente e pelas percepções humanas. Contato e outros textos do autor, você encontra  em:

O monstro é a violência, não o menino

7 ago

Sobre o vídeo do menino agredindo fisicamente crianças menores numa escolinha – sabe qual é o maior absurdo que vejo? Os comentários que o chamam de monstro e desejam que horrores aconteçam a ele.

O que se vê no tal vídeo [que eu não vou postar aqui, não] é uma cena lamentável… Parece que ninguém naquela escola sequer supõe que aquilo aconteça. O menino espera até que as professoras não estejam olhando e, sem mais nem menos, agride um ou outro coleguinha que, por ser muito menor que ele, não se defende, nem mesmo parece saber expressar o ocorrido. Apenas chora e ele sai de perto como se nada tivesse acontecido… E repete o ato novamente várias e várias vezes depois.

Sim, é horrível ver ele batendo nos menorzinhos! É angustiante! Mas o mostro é a violência, não o menino. Parece que muitos não notam que se trata de um menino!!! Um menino que, de alguma forma, acumulou toda aquela agressividade em si e isso é muito, muito triste.

Vejo muitos comentários perguntando ‘cadê os pais dessas crianças?’ – bom, uma vez que a filmagem tenha sido feita numa escolinha, imagino que estejam trabalhando e, como a maioria de nós, confiando nas pessoas com as quais deixam os seus filhos nas horas em que precisam se ausentar, seja para garantir o sustento deles, seja para resolver outras coisas da vida pessoal.

E ‘cadê os professores’ que deveriam olhar por eles? Essa, sim, é uma pergunta pertinente. Mas vale lembrar que professores são pessoas, não máquinas – eles têm fome e necessidades fisiológicas. Eles se distraem e se ausentam ou piscam, porque são humanos! Então, sim, eles comentem erros, como todos nós… Mas também não são eles os monstros.

Sim, falta zelo por aquelas crianças. Sim, faltam adultos mais atentos que as cuidem e instruam… E se mais alguma coisa falta àquele menino, certamente, não é mais violência,  é amor! O amor é a única saída.

Cuidar das criança é responsabilidade de todos nós.

E isso precisava muito mesmo ser dito aqui.

Porque o amor é a cura!

Papo de pai #1: Ano Um

6 ago
Costumamos dizer que esse blog fala sobre ‘maternagem’, pois nós, autoras,  somos mães, portanto falamos dos anseios e jeitos de esperar, parir e criar filhos como mães que somos, não poderia ser diferente. Mas, na verdade, esse blog é mais que isso – é um blog sobre criação com apego, sobre alimentação saudável, sobre brincar na rua, sobre mais criatividade e menos consumismo, sobre…
…criar filhos da melhor maneira que se pode criá-los.
E isso não é coisa de mãe. É coisa de quem cria filhos!
Isso é coisa de pai tanto quanto é de mãe!
 –
E como será que funciona pra eles? Será que tem diferença?
Isso só um pai poderia responder…  então convidamos alguns amigos pais – pais presentes, pais apaixonados, pais reais – para que eles nos falassem um pouco, cada um a sua maneira, das coisas da paternidade. E em agosto, mês dedicado a eles [ok, data comercial, blá blá blá… mas pode ser usada para o bem!] o AG abre espaço para o Papo de Pai – que começa agora e com um texto muito especial, não por ser o primeiro, mas por ser lindo, por ser forte, por ser real – obrigada, Henry, por nos trazer isso!
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Ano Um
Por Henry Alfred Bugalho

Nunca entendi bem porque as pessoas põem filhos neste mundo fodido. Principalmente porque boa parte dos problemas é causado pelas próprias pessoas.

Irresponsáveis criando mais irresponsáveis.

Nunca entendi bem, e passei a entender menos ainda depois de ter o meu próprio filho.

Por que fazemos isto? Qual é o sentido essencial deste ato? O que esperamos disto?

Já concluí que estas são questões falsas. Não podemos esperar sentidos essenciais para nada.

Os sentidos são criados. Nós os criamos. Nós temos de inventar os porquês.

Dizem (Lacan, suponho) que uma mulher se torna mãe no momento em que descobre a gravidez, enquanto o homem só se torna pai quando o bebê nasce.

Isto me parece natural.

A mulher não tem como tirar se si todas as transformações, os enjoos, a fadiga, a barriga crescendo, as posições incômodas para dormir, os chutes nas costelas e os soluços do feto. Está dentro dela.

Bebê e mãe são um só.

O pai é um espectador. Foi convidado para a festa, mas tem de vê-la do lado de fora.

A realidade da paternidade só desaba sobre os ombros do pai quando o bebê sai, chorando e tremendo, e nas noites sem sono que se seguem.

O pai nasce junto com o filho.

“O parto é um milagre; uma prova da nossa centelha divina”.

Quantas vezes já não ouvi algo semelhante expresso com outras palavras?

Para mim, assistir ao parto do meu filho foi a maior evidência da nossa natureza animal. É realmente um milagre, mas sem nenhuma relação com entidades supremas. É tão miraculoso e extraordinário quanto uma borboleta abrindo suas asas pela primeira vez após seu tempo no casulo.

Este é o nosso contato mais íntimo com todos os demais mamíferos; é o nosso vínculo com todas as demais criaturas vivas que subjugamos ou exterminamos.

O bebê nasce e, em contato com a pele da mãe, ameaça engatinhar, arrastando-se centímetros em direção ao peito.

Quão frágil somos neste instante, a mais dependente de todas as criaturas do planeta nesta primeira etapa! Sentimos medo de machucá-lo, como se fosse frágil e quebradiço.

Ele dorme, mas não queremos deixá-lo à sós nem um segundo.

Tão pequenininho e indefeso…

Os três primeiros meses parecem ser intermináveis. É como se houvéssemos ganhado um bonsai.

Um bonsai que chora, caga, mama e precisa de atenção vinte e quatro horas por dia.

Já tivemos um bonsai antes, que morreu em poucos dias. Esquecíamos de regá-lo e de pô-lo para pegar sol.

Se chorasse, cagasse e mamasse, talvez o nosso bonsai ainda estivesse conosco.

Os três primeiros meses são a prova de fogo, ou como dizem os americanos, o momento do “make it or break it”.

Creio que pais nenhuns se recuperam deste começo, que nunca mais voltam a dormir como antes, que nunca mais ouvem um choro se disparar alguns alarmes no cérebro.

O bebê tem tanta coisa para aprender, mas os pais também.

E não há atalhos.

Então ele começa a rir e a interagir. O bonsai vira gente.

Os primeiros meses de um bebê, que podiam muito bem ser usados pela CIA como estratégia de privação de sono para interrogar prisioneiros, dão lugar aos primeiros instantes realmente divertidos.

Quase todos os dias há uma surpresa, uma coisa nova que o bebê passou a fazer, que aprendeu sabe-se lá como. É uma máquina de aprendizado e nos faz indagar como deve ser incrível ver tudo pela primeira vez.

Estamos tão calejados que muitas vezes não percebemos como a vida é fantástica e singular. No entanto, para o bebê tudo é novidade: a bolinha, o cachorro, as pessoas, as luzes, as músicas, as sensações, os sabores.

Tudo está acontecendo pela primeira vez. E dá aquela inveja boa de poder se espantar uma vez mais diante de tudo.

O artista é um bebê que jamais deixou de se surpreender.

Há momentos em que os pais sentam-se num canto e dizem, com as mãos na cabeça: “Não posso mais…”

Há outros em que eles se abraçam e riem juntos vendo o filho: “Por que esperamos tanto tempo para vivermos isto?”

E há também quando estes dois sentimentos ocorrem simultaneamente.

Presenciamos muito a cena de pais sozinhos com seus bebês aqui na Espanha.

Não há esta divisão entre o que é papel da mãe e do pai, excetuando por limitações fisiológicas incontornáveis. Todavia, se um dia descobrissem uma técnica que permitisse ao pai dar o peito, penso que os espanhóis fariam sem titubear.

Ficaria feliz se meu filho crescesse num ambiente assim, onde o pai não é somente aquele que paga a conta.

Ser pais é trabalho em tempo integral. Trabalho para os dois.

Sem nos darmos conta, já se passou quase um ano. O bebê, que era tão dependente e estático, agora não para quieto um segundo. Tem tudo para descobrir e, se ele tiver sorte, sempre agirá desta maneira, percebendo o mundo como um local para ser explorado.

A grande aventura da vida.

Não tive pai. Ele morreu quando eu tinha apenas seis anos. Sempre ouvi que ele era um bêbado e um vagabundo.

Hoje, acredito que era apenas uma pessoa que precisava de ajuda, numa época em que isto era somente vadiagem.

Não sou um bêbado nem um vagabundo. Quero que meu filho se lembre do meu rosto e saiba quem eu fui de verdade. Quero estar ao lado dele em seus momentos mais felizes; quero que ele possa chorar no meu ombro as suas derrotas. Quero me orgulhar dele, independentemente de suas escolhas, e quero que ele se orgulhe dos pais que teve.

Não é pedir muito.

Estamos fazendo escolhas difíceis. Escolhas que influenciarão toda a vida dele, que poderão dar muito certo ou muito errado, das quais poderemos nos arrepender um dia.

Mas quais pais não têm tais inquietações?

A grande lição que o nosso filho aprenderá, se não conosco, certamente ao longo de seus sucessos e dissabores, é que toda escolha é delimitadora.

Escolher é renunciar a todas as demais opções. Ser livre é fazer sacrifícios.

Escolhemos estar ao seu lado.

Henry e Phillipe

Henry e Phillipe

Phillipe e Henry

Phillipe e Henry

Henry é curitibano, formado em Filosofia, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor de romances, novelas, coletâneas de contos e guias de viagem. Editor da Revista SAMIZDAT e fundador da Oficina Editora. Morou em Nova York, Buenos Aires, Itália, Portugal e está baseado, atualmente, em Madri, com sua esposa Denise, o bebê Phillipe e Bia, sua cachorrinha.

Vale dizer também que o nascimento do Phillipe já foi contado aqui, por sua mãe, Denise Nappi – é só clicar para ler;]

 

 

Terrible Twos ou ‘Mr Hyde: é você, meu filho?’

23 maio

Desde que completou 2 anos Dimi tem apresentado um comportamento que eu costumo descrever como ‘com a macaca’ [nenhuma relação com a campanha ridícula do #somostodosmacacos, me poupem] – na verdade, tudo começou dois dias antes de completar os 2 anos… Pegue tudo que você lê sobre ‘The Terrible Twos’ – a fase de desenvolvimento mais complicada pela qual uma criança passa… uma crise que pode durar um ano inteiro, a adolescência do bebê – e aceite: é verdade, sem exagero!  – e pior: pode acontecer com você. A chegada dos dois anos pode despertar o Mister Hyde do seu pequeno Dr Jekill e não há nada que se possa fazer a não ser run, RUN! corra, corra e não olhe pra trás! ter pa-ci-ên-cia.

A crise dos dois anos [The Terrible Twos] é conhecida como 'a adolescência do bebê'

A crise dos dois anos [The Terrible Twos] é conhecida como ‘a adolescência do bebê’

E terrível é pouco para descrever a crise que tomou conta do Dimi – nos primeiros dias, menino chorava, chorava sem parar e se agarra a mim como se o chão fosse se abrir caso ele me soltasse. E mamava, senhor… esse menino mamava! Mamava até me transformar numa uva passa desalmada. E tudo que ele vinha demonstrando de conhecimento engatilhado – os ‘aplicativos que estavam com mais de 50% de download’ – como comer sozinho, falar, dormir sem colo… atividades que envolviam independência… de repente, puft, zeraram – ou assim pareciam.

No mês que se seguiu, essa insegurança deu lugar a fúria. E ao invés de chorar como se estivesse medo e se agarrar a  mim, o menino começou a chorar, se jogar no chão e bater em tudo e todos que estivessem ao seu redor. E nós passamos de nível no que diz respeito a paciência e atingimos o nível épico desse atributo. Mas naquele momento, ninguém comemorou – não havia como.

  • Quando as primeiras crises de fúria vieram com força, tentamos conversar com ele, dar carinho, explicar que bater é ruim e não faz passar a coisa ruim que ele tava sentindo — tentar nomear o sentimento, a tal coisa ruim [geralmente, a crise explodia quando ele estava com fome ou sono ou ambos — depois, bastava ser contrariado e pimba].

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Bebê em conserva

16 ago

Sabe aquele bebê que se pega no colo em festas? Um bebê sempre arrumadinho, conserva os sapatos nos pés, ainda que não caminhe, conserva aquele “cheirinho de bebê”… limpo – cheiro de produtos para bebê, isso, sim – o que nos outros não dura 5 minutos – não sua, não estranha, não chora nem faz manha, não procura a teta da mãe. Não resmunga. Fica sozinho no carrinho, bem calmo, bem quietinho… Corre até um boato de que dorme a noite inteira, já aos seis meses! Pois é, ele existe – vi um, não faz muito. Parecia um modelo de bebê… um protótipo… Ideal… para ser usado em campanhas publicitárias com o slogan “Peça já o seu: garantimos a entrega em 9 meses!” e, em letras miúdas, o aviso “essa imagem é meramente ilustrativa, podem haver mudanças no produto – não aceitamos devolução”. Um bebê “exemplar”.

boneco

Já o meu… Escolhe o colo que mais lhe agrada – e esse, sempre que possível, é o meu… O carrinho, fica fechado em festas. Prefere a pele ao nylon, mas quem vai condená-lo? Espanta as pessoas quando abocanha o meu nariz e ri. Eu rio também, não me importo. Abocanha meu peito por cima da blusa – digo que o tecido tem estampa de boquinha. Ele me baba e brinca com o meu cabelo… me esbudega toda – realmente, não me importo! Não uso brincos desde que ele nasceu – minhas orelhas agradecem a leveza da nudez – os pés dele, também – sai de casa calçado, mas brinca com um pé no outro até tirar os sapatos e eu os guardo na bolsa para não perder. Também sai cheiroso, (eu juro!), mas pula e brinca e mama e sua… Sim, ele mama – e mamará enquanto tiver vontade. Ele tem cheiro de bebê, é o meu bebê, o reconheço de longe… ainda que não o veja, ouço os gritinhos… e não tem no mundo coisa melhor que isso.

Juedimi2a

“De longe, benzinho, é favor não me querer, benzinho – dinheiro eu não tenho, benzinho, mas carinho eu sei fazer até de longe, benzinho… é favor não me querer, benzinho – dinheiro eu não tenho, benzinho, mas carinho eu sei fazer até demais” [Quixabeira]

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“Que Deus conserve”, dizem as tias velhas… Imagino que aquele bebê tenha muitas delas na família… Deus fez dele um pickles! Tadinho… Pois eu prefiro o meu In Natura, muito obrigada ;]

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não é um boneco. esse, tá bem vivo. vivo e feliz, obrigada ;]

não é um boneco. esse, tá bem vivo. vivo e feliz, obrigada ;]

 

Dia dos pais…

10 ago

…já é amanhã, minha gente e eu procurando algo bem legal pra postar.

E eis que leio um relato do pai do meu filho e putz, nada mais justo um relato de um pai, para o dia dos pais, né? Os pais deveriam escrever mais. Fico boba quando leio ‘pais’, são tão sensíveis, divertidos e babões…

Segue o relato de parto, que meu marido NÃO viu.

Por Renato Maluf (pai do Pi)

Esperávamos nosso filho, a Mari e eu, para uns 10 dias, mais ou menos, depois que ele nasceu.
Eu estava absolutamente tranquilo, ou melhor, relativamente tranquilo, aqui em S. Paulo, trabalhando num escritório de movimento frenético, e naquele dia (6/3/XII), durante uma reunião, pensei muito intensa e insistentemente na minha esposa, grávida. A sensação foi de que meu filho nasceria, e a reunião, para mim, tornou-se algo como A Chinela Turca, de Machado.
Saí da banca, naquele dia, embarafustado em pensamentos os mais disfóricos possíveis. Quando liguei para a Mari, ela só me disse:
– Estou sentindo umas cólicas muito fortes, mas acho que é normal, nos últimos dias.
Pronto. O coração foi a mil. E tome bradicárdicos!
Devemos ter trocado uns 6 telefonemas, até perto de meia-noite, quando então consegui dormir, ela me havendo garantido que nos derradeiros dias pré-parto tais cólicas eram comuns.
Acordei perto de duas e tanto da manhã, com um telefonema da minha sogra dizendo apenas:
– Renato, é chegada a hora…
Aprontei-me, tipo tomei banho, fiz um café fortíssimo, mandei um chocolate dulcíssimo, montei uma mala tipo na urgência (engastalhei as roupas lá dentro de qualquer jeito) e fui embora: de Sampa a Marília são perto de 5h de viagem, se se andar no limite de velocidade de cada estrada.
Não senti o tempo passar, nem me senti passando pelo tempo.
Como seria a cara do nenê? Um joelhinho? Um coelhinho? Um pompom?
E minha esposa, como estaria? Bem? Cansada? Frágil?
Aaaaaaaah!
Cheguei à Cidade natal de meu filho no meio da manhã e já parei perto do hospital. Subi rapidamente para o quarto. Certifiquei-me de que a Mari estava bem, e… a cena mais linda que já vi em toda a minha vida: um trocinho de 3,5 kg e 50cm estava lá, pequenito e frágil, mas capaz de trazer para um pai de primeiera viagem a mais forte das emoções que a vida poderia proporcionar-lhe.
Peguei-o no colo, abracei-o apertado (claro, respeitando a sua textura de geleia, tadinho), e queria chorar, queria rir, queria tudo o que fosse estar lá e participar daquele momento mágico.


Quem diria?
Eu me preparava psicologicamente havia muito, para ver o parto, fotografá-lo, etc, mas meu filho se antecipou uns dias.
Até hoje o pestinha tem pressa para tudo. Se você quiser saber se seu computador ou sua internet são rápidos ou não, ponha nas mãos dele: se ele começar a emitir sonzinhos guturais, ou você se conforma com a baixa qualidade de seus equipamentos e provedor, ou troca tudo. Ele exige velocidades próximas aos 100 megas, e já era assim desde a concepção, pelo visto.
Participei (não como protagonista, mas como coadjuvante) de um dos primeiros banhos; troquei fralda; fiquei muuuuuiiiitooo com ele no colo.
A vida, que às vezes parece uma coletânea de desditas, é capaz de trazer momentos de tamanha alegria, que a gente se sente re-compensado, como que pago pelo ‘pretium doloris’ do restante.
Não sei o que dizer, mas no crisol da emoção a alma acaba por depurar-se um pouco.
Não vi o parto, mas vi o resultado. E ainda vejo.
Dia dos pais, e meu maior presente foi ter achado uma mulher-amiga-amante com quem desejei ardentemente ter o filho que temos.
Bênção de Deus? Obra do Destino? Fatalidade? Coisa da Vida? Não sei. Interessa mesmo, e muito, a alegria em si mesma.
E de parto em parto (maiêutica aqui incluída), vamos nascendo e renascendo, os três juntos, todos os dias, cada um aprendendo com o outro que para bem viver é preciso ver… com olhos de amor. Com olhos de alma. É preciso que a órbita ocular se volte para dentro de nós mesmos e contemple o interior de nossos amados.
“Sic transit gloria mundi.” E aqui glória é glória, mesmo.
Obrigado, mãe! Obrigado, filho!

——————————

Obrigada marido, por ser esse paizão e por estar sempre ao nosso lado.  S2

E um feliz Dia dos Pais, turma que acompanha o AG!!

#abraceseupai

(Já estão participando do sorteio de dia dos pais do AG? Corre lá que ainda dá tempo.)

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