Um desmame (natural e) surreal

23 maio

‘…e no quarto dia eu acordei com uma dor no peito
…que uma semana depois, onde antes houvera dor, agora restava um vazio’.

Isso resume tudo o que tenho a falar sobre os últimos dias – sobre uma das maiores transformações que já presenciei na vida. Sobre o quanto ter um filho, amar essa criaturinha com todas as forças e olhar bem de perto o desenvolvimento que se dá diariamente e, de quando em vez, aos saltos… é um susto.

Não que isso seja ruim, pelo contrário – é lindo, é emocionante, é a coisa mais encantadora que se pode experimentar na vida, mas não encontro palavra mais adequada que ‘susto’.

Criar um filho é um susto que constantemente se renova.

Um susto, feito a água na cara pela manhã – que nos acorda, que nos aviva… É isso: Um filho nos torna mais vivos. Sim, estou romântica e, mais que isso: sim, estou dramática – estou sofrendo. Mas tenho um grande porquê:

Meu filhoaquele que todos achavam que mamaria até os 18 anos, de repente, desmamou. Por conta própria e ‘mais ou menos’ da noite para o dia.

E eu deveria estar feliz [e estou, juro que sim], afinal, o tão sonhado desmame natural era tudo o que eu queria! Mas o sentimento com o qual estou lidando é muito ambíguo…

Não sei até que ponto isso se deve pelas transformações fisiológicas que o não-mais-amamentar desencadeou no meu organismo, mas sei que ninguém avisou previamente ao meu peito sobre essa mudança – foi uma… aposentadoria forçada! E agora, ele ainda acorda achando que precisa ir ao serviço…

É deprimente seguir produzindo um leite que meu filho não quer mamar [alerta de drama! alerta de drama!] — é triste ter que tirar esse leite  e descartar – já que a quantia é pouca, mas contínua, leva dias até eu perceber que, sim, vou precisar ordenhar [feito vaca mesmo! Não somos muito diferentes delas!] outra vez… Sem contar na dor de massagear as áreas engurgitadas até desmanchar, antes que isso evolua numa mastite… a essa altura do campeonato!

2 anos e 40 dias… esse foi o período no qual meu filho mamou como se não houvesse o amanhã!

Dimi no 'tetêtis' com menos de 1 semana de vida

Dimi no ‘tetêtis’ com menos de 1 semana de vida

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Ok, devo dizer: já fazia um longo tempo desde que a magia do nosso ‘momento-tetêtis’ vinha se apagando… Dimi mamava loucamente, a qualquer hora e em qualquer lugar [meus seios quase foram tombados como patrimônio da humanidade] – menino jamais aceitou um ‘agora não, meu filho’ como resposta. Se eu pusesse uma roupa onde os peitos estivessem inacessíveis, era capaz dele conseguir puxar um seio pelo buraco da manga! E as camisetas estilosas que eu tanto curto? Se eu não chegasse em casa tirando, em instantes ganhava uma customização de gola canoa… e quem amamenta sabe do quão irritante isso pode ser. Sem contar que, por ele, todas as mamavas seriam inacabáveis – e eu me sentia péssima em ter que guardar o peito na marra, sob protestos, mas não havia outro jeito – ou era isso eu seríamos encontrados daqui a 30 anos – eu, seca feito uma uva passa, ele, inflado feito um baiacu assustado.

——————

E então, para susto geral da nação, ele parou.

E parou por quê? Por que parou?

Ah... isso deixa uma saudade!

Dimi enquanto ainda era um mamão

O que acredito que aconteceu começou com uma greve de mamar que terminou como um desmame natural-abrupto [isso existe? se não existia, Dimi inventou].  Eu explico:

Desde que completou 2 anos, Dimi está… em crise: chora por tudo, briga e bate e joga com as coisas,  mama [ou mamava] zilhões de vezes por dia, como se mamando se refugiasse de tudo que não está a fim… [Terrible Twos, baby — falarei sobre isso num post futuro também].

E isso foi piorando e piorando e ficando enlouquecedor… até que, pra ‘melhorar’ a situação, menino pegou um resfriado terrível que resistia a remédios e se arrastou por quase um mês. E em solidariedade, eu fiquei empesteada também. As mamadas se tornaram difíceis e eu percebi que estava produzindo menos leite – mas isso já tinha acontecido alguns vezes e depois a produção sempre voltava com tudo e mais um pouco! Não dessa vez.

Menino tentava mamar, o leite era pouco, o cansaço era grande – precisava parar para respirar mil vezes… em algumas dessas pausas, eu aproveitar para fazer a limpeza das mini narinas entupidas – o que o ajudava muito, mas o irritava ainda mais. E então, ele começou a morder! Sim, a me morder, a morder os mamilos…

Ele mordia, eu repreendia, ele ficava brabo, dava um tapa no seio, eu explicava que bater é ruim, ele chorava e, emburrado, desistia de mamar. Isso durou uns dois dias.

Então, ele passou a pedir tetê, mas ao invés de mamar, só mordia. Pedia para morder. Mordia e chorava – antes mesmo que eu disse qualquer coisa… tava numa relação de amor e ódio com o tetêtis.

Dava pra sentir a angústia dele… E eu não fiquei menos angustiada. Seguia oferecendo nos horários habituais e não negando nas vezes em que ele pedia [mesmo temendo outra vez a trindade mordida-choro-birra]. Só que aí, algum estalo aconteceu naquela cabecinha cabeluda dele – e ele passou a pedir o peito, mas não para mamar – só para olhar…

Como se quisesse ter a certeza de que a mamãe não estava negando;

– como se quisesse mostrar que só não mamava porque não queria.

Pedia, eu dava, ele olhava, algumas vezes fazia um carinho e saia, na boa, sem choro, e seguia com seus afazeres de menino.

Esse comportamento durou mais uns 2 dias, até que ele simplesmente parou de pedir.

Eu fiquei bege, passada!  totalmente boquiaberta… incrédula. Eu e todas as pessoas mais próximas.

E o mais incrível: o comportamento dele havia mudado: estava mais calmo, mais seguro, mais independente!

O salto havia sido dado.

Decidi então engolir o choro aceitar e apoiar a decisão dele – não ofereci mais, passei a vestir blusas e casacos que escondessem o peito [quem não é visto, não é lembrado] e quaisquer palavras que fizessem referência a mamar ‘tetêti, teta, mama’ foram temporariamente banidas do nosso dicionário doméstico.

Secretamente, eu torcia para que ele não mais pedisse, porque caso ele pedisse, eu não negaria – e não sei que consequências isso teria no desenvolvimento dele. Talvez aí, sim, pensasse que não podia viver sem tetêtis, ou que a mamãe não poderia… e mamasse até os 18, como todos achavam que faria!

Ele não pediu.

Mas a safadeza continua a mesma...

Mas a safadeza continua a mesma…

Os dias se passaram e já faz quase 2 semanas e ele não pediu.

Algumas vezes, enquanto brinca, ouço entre os balbucios dele um ‘tetê didi’ – mas é ele resmungando com seus botõezinhos. Pedir, não me pediu mais. Nem mesmo de forma-não-verbal: incrivelmente, já posso até comprar novas blusas sem temer aquela customização básica . O engraçado é que eu digo-escrevo isso com uma certa tristeza…

Vai entender o coração de uma mãe?!

O meu, tá num misto de tristeza e alegria… saudade e orgulho desse menino de temperamento tão forte, tão decidido, que chamo de filho.

E esse é o fim da nossa história de amamentação prolongada: Dimi, Dimitri mamou loucamente por 2 anos e 40 dias – com os seis primeiros meses de amamentação exclusiva – sendo que eu trabalho fora de casa por 5-6 horas por dia. E o faço desde que ele tinha 5 meses de vida.

Quero encerrar de forma menos ‘mimimi-ele não mama mais’, dizendo que um dos momentos mais lindos que já vivi nessa maternagem foi dar colo ao dimi pela primeira vez pós desmame – ter ele no meu colo, sentadinho, fazendo chamegos e soninho, sem pedir tetê… ai, ai… Foi reconfortante demais! Dizem que o desmame é como o cortar de um cordão umbilical – um dos mais importantes.  Nossas vidas são feitas de vários deles. Pois esse primeiro colo sem tetêtis foi o que me faltava pra deixar que o cordão fosse cortado e aceitar com alegria essa nova fase que se inicia.

Dimi, já desmamado, escabelado e faceiro, com 2 anos e 40 dias

Dimi, já desmamado e faceiro, com 2 anos e 40 dias

Vai meu filho, cada dia menos bebê, cada dia mais menino – vai que esse mundo é todo teu!

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[e agora eu tenho meus peitos de volta, novamente pequenos e escondidos, e me divirto fingindo que ninguém sabe ‘a cara’ que eles têm ;]

6 Respostas to “Um desmame (natural e) surreal”

  1. marileise 23 de maio de 2014 às 8:52 PM #

    Bem vinda as alegrias e tristezas do desmame natural! E parabéns pro Dimi, por ter sido tão decidido e sem sofrimentos (pra ele)!

  2. vanusa 24 de maio de 2014 às 12:49 AM #

    Ju que lindo! Fiquei emocionada e admirada! Eu imaginei que ele iria mamar ate os 18 ehe. O Pedro tambem e um mamifero voraz…. espero que ele tenha um desmame tao natural como o Dimi. Eu as vezes tenho a impressao que eu vou virar uma “tetaaa” ambulante eheh. Fiquei imaginando como sera quando ele so pedir “tet^e”… bjos!! Adoro teus textos!

  3. Ju Blasina 24 de maio de 2014 às 11:02 AM #

    Obrigada, queridas! Os filhos crescem e (minha nossa, como crescem rápido!) o que nos resta a não ser crescer junto a eles, né? Essa fase dos 2 anos começou muito turbulenta, minha nossa… Mas, ao mesmo tempo é de uma lindeza sem tamanho – e vcs sabem bem do que eu falo😉 Bjus pra vcs e para os lindinhos e obrigada pela lida!

    • daisymotta 31 de outubro de 2014 às 9:03 PM #

      Bem, cá estou eu um momento parecido! Depois de 2 anos e 40 dias meu pequeno Pedro faz 3 dias que não mama o mamá. Estamos em Berlin e ficamos na ultima semana 24 horas “grudados”. E ele que hora pedia o mamá, hora nao resolveu pediu biscoito de arroz antes de dormir. Será uma greve? (Ele nunca fez greve de mamá, sempre mamou em livre demanda e pelo tempo que quis (geralmente nunca passava de 20 minutos). Depois do biscoito de arroz o meu Pedro colocou a cabeça encostada na minha, bochecha com bochecha e disse: que macio, gostoso…. Cada vez que ele tentava se encostar bem perto de mim e do meu corpo eu pensava que ele ia lembrar e pedir o mamá. Mas nao. E aquele menininho, que me falavam que mamaria ate os 7 parece que nao precisa mais do mamá. Bochecha com bochecha bastou para faze-lo dormir. E parece que mais um mito se foi… Ja estava lendo sobre desmame natural pois nunca seria capaz de colocar algo no peito e dizer que o mamá estragou ou coisa do tipo. Isso deveria partir dele. Assim como foi quando aos 18 meses largou de chupar dedo (e todos diziam que o bico era melhor e mais facil de largar que o dedo). Ele cresceu… E vamos ver o que nos aguarda nas proximas semanas afinal, estamos em outro país e em nossa terrinha quem sabe ele se lembra do mamá?

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  1. Greve de mamar ou Desmame natural? | andoGESTando - 24 de maio de 2014

    […] sonhado desmame natural se dá aos poucos, (o comum é que ocorra em crianças de 2 a 4 anos) de forma que o peito reduz a […]

  2. Terrible Twos ou ‘Mr Hyde: é você, meu filho?’ | andoGESTando - 4 de junho de 2014

    […] uma trégua e um salto imenso de desenvolvimento se revelou: Dimi, um viciado em tetêtis anônimo, o menino que todos achavam que mamaria até os 18 anos, de repente, desmamou – com 2 anos e 40 dias – Dimi desmamou […]

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