Apenas um relato sobre a ‘dor de parto’

29 set

Cesárea dói.

Engana-se quem pensa que não, quem opta por uma por medo da tão famosa ‘dor do parto’, o normal.

Eu sou Ju Blasina, uma das autoras do blog Andogestando, poeta, bióloga, mãe do Dimi, que nasceu há 2 anos e meio pelo meio cirúrgico, não natural, e estou aqui pra dizer que: dói, cesárea dói e muito.

Dói a ideia de ter seu corpo invadido por instrumentos cirúrgicos, dói quando isso é feito sem qualquer respeito pelas vidas confiadas aos profissionais atuantes. Dói mais quando não é uma escolha e mais ainda quando se questiona pra sempre a necessidade disso. Dói e imagino que doa mesmo quando é comprovadamente necessária — já que isso significa algum problema sério a mudar os planos e roubar o romance do momento pelo qual mais se espera.

Dói também tudo o que vem depois — semanas de movimentos limitados e dor [porque se encher de boletas analgésicas não é a maneira mais adequada de se iniciar na amamentação]. Meses depois e a marca daquele corte que não precisava estar ali dói.

Dói assistir a outros partos, partos lindos, partos que permitem aquele momento sublime em que a mãe abraça seu filho recém-nascido e o recebe com ambos os braços livres e com calor, com todo calor que ele precisa e que ela guardou pra ele — e o põe no colo e oferece o peito e ele aceita ou dorme aconchegado ali, não num berçário, sozinho, por horas e horas e horas… ou dias.

Dói o furto da dor que não se teve — aquela que transforma, mãe e filho, a dor que não requer analgésicos e que termina assim que cumpre seu propósito: o de trazer a vida.

Uma cesárea quando vista de perto e sentida da forma como eu sinto a minha quando fecho os olhos e passo lentamente os dedos sobre a cicatriz profunda que ela deixou em mim… Dói — dói muito e sempre, sempre vai doer.

E só o amor cura...

E só o amor cura…

Sobre meninos e pintos…

27 set

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Estou há décadas para escrever sobre o pinto do Pi. Mas me faltava mais assunto, entendimento, vivência e conclusão da coisa toda.
Tá pensando que lidar com pinto é fácil? Aqui não foi muito não. Eu explico…

Desde que Pietro nasceu e até hoje (2 anos e 6 meses), ele tem o pinto bem fechado. Só passa o xixi ali pelo furinho e boa.
Isso nunca me encanou, até o pai da criança ver que o bichinho era extremamente fechado, pra começar a neura. Neura muito mais dele do que minha…

Eu dizia: “pra quê mexer aí?” “deixa que a natureza se encarrega de abrir” “como as índias fazem com seus rebentos homens? por acaso saem correndo pra farmácia pra comprar pomadas com corticóides?” “como foi contigo? vc usou pomada? não, né?” “meu pai, meus avôs, tios, irmãos e primos nunca usaram nada no pinto.”

A chata do pinto eu me tornei…eu sei.

Já passei Pietro em 4 pediatras até hoje (finalmente encontramos o nosso querido humanizado…post sobre ele muito em breve S2) e aí que 2 deles nos indicaram o uso de uma pomada com corticóide no pinto do Pi.

E um deles, o frankenstein da fimose, nos indicou cirurgião e tudo o mais…para uma criança de 2 anos. Blé…
Eu ia levando as consultas (que ocorriam raramente, pq Pi nunca foi de ficar doente…graças) em banho maria. Não discutia com o médico, que é um senhor já bem de idade.
O que ele falava sobre “pinto muito fechado” entrava por um ouvido e saía por outro.
E na boa, eu nunca fui de exaltar médico. Ainda mais esses que chegam com a mesma “fórmula” de criação para todas as crianças. Sempre ouvi muito mais minha intuiçao e sim, já cheguei a mentir pra pediatra pra não levar bronca e pra evitar discussões.

Até que em uma consulta com o frankenstein da fimose, a ultima com esse ser, que só levamos Pietro lá pq ele estava com uma tosse terrível…o médico começou a dar uma bronca MOR em nós. Que onde já se viu deixar o pinto do menino fechado daquele jeito, que ele já tinha nos “mandado” ver um cirurgião e blá blá blá… Até aí beleza… Fui ouvindo com o “tô nem aí” ligado.
Só que na hora de examinar, ele simplesmente puxou o pinto do Pi bruscamente e começou a sangrar… Só isso.

Preciso nem contar como fiquei pê da vida, né? Levei meu filho lá pra ser examinado por outros motivos…não pelo pinto fechado.

Enfim, troquei Pietro, dei colo, dei o peito, acalmei, conversei muito com ele, pedi desculpas por ter deixado o médico examiná-lo (morri de culpas e a vontade que eu tinha de chorar era mil) e disse também pro Pi que nunca mais voltaríamos ali.
Fui curta e um pouco grossa com o médico e nunca mais voltamos. Hoje me arrependo de não ter sido muito mais grossa com ele. Fui respeitosa demais por ele ser já bem velho :'(

E somente “graças” a esse episódio é que me convenci (e convenci o marido) que nosso filho precisava de um pediatra bacana. Pra ele, principalmente e para nós, pais.

Já tinha lido sobre o Cacá, já sabia de sua humanização e haviam ótimas indicações e relatos sobre ele.
Em outro post vou contar como foi essa consulta :)

Cacá foi bem sensato e notou que eu estava mais voltada para o “NÃO mexer no pinto” e o marido mais voltado para o “TALVEZ usar a pomada”. Cacá disse uma coisa que achei bem certa… Ele sugeriu para deixar essa escolha nas mãos do homem…do pai… Pq o pai é que também tem pinto e entende mais sobre isso. Nos sugeriu botar a mão no coração e na consciência, resolver essa história e ficar tranquilos com a escolha final.

E aí que eu encontro um texto da Kalu Brum, muito EU, sobre o assunto. Enviei ao marido e por fim, ficamos bem tranquilos com a questão. Não vamos mexer no pinto do Pi. Nada de pomadas, exercícios, nada… Vamos observando e eu sinto que a coisa vai fluir naturalmente.

O texto é esse aqui – http://vilamamifera.com/mamiferas/uma-visao-mamifera-sobre-fimose/

Um trecho dele:

“Vamos pensar: se a maioria dos meninos naturalmente terá a pele descolada, para que intervir com cirurgia ou uso de pomada?
Algumas mães, orientadas erroneamente por pediatra, submetem os filhos à dores. Li numa discussão uma mãe que disse que o pediatra puxou a pele à força (em 3 etapas – uma a cada dia). E que o bebê chorou pouco (justificando que não deve ter doído).
Voltando às estatísticas: se a maior parte das fimoses se resolvem até 4 anos para que intervir? E se a mesma permanecer, adolescência a fora, aí o garoto pode ser submetido à cirurgia, conscientemente, fazendo repouso. (Imagina obrigar uma criança de 5 anos a ficar de repouso?!).”

E que fique BEM claro aqui, que eu NAO estou atacando quem optou em fazer o uso da pomada em seus filhos, ok?
Sou do “cada um sabe o que é melhor e o que funciona em suas próprias vidas, famílias e lares”. Tanto que minha amada Ju Blasina, fez uso da pomada no Dimi e super deu certo pra eles. Sem neuras…

:)

Sobre a não-síndrome de mãe-única

13 set

Ouvindo alguns comentários sobre meu jeito de maternar [elogios, na maioria das vezes, até porque quem discorda não costuma se manifestar] me peguei pensando em por que eu não pareço [o estereótipo de] mãe de filho único?.. [como chama isso, mãe única? Pois deveriam criar um termo que simplifique... Se criaram, tô por fora --- vou usar esse: mãe única x mãe múltipla].

Não pareço mãe única porque não acho que meu filho vai quebrar no primeiro tombo [ou no segundo, ou no 23º do dia]: crianças escalam, correm, e, no caso do lá de casa, então… pulam loucamente – e caem, e levantam e seguem fazendo o mesmo, na maioria das vezes – a menos que algum adulto apavorado as impeça… Também não temo que vá sufocar dormindo, comendo, tomando água ou que vá ‘ficar vesgo’ lendo de cabeça pra baixo, olhando pra aba do chapéu ou girando feito piorra louca. Continuar lendo

Papo de pai #3: Paternidade conquistada com sucesso

26 ago

por Jairo Lopes*

 Minha relação com Dimitri começou de  forma complicada, creio que muitas assim começam…

Dimi - Jairo - e Rukia

Dimi – Jairo – e Rukia

Foi algo realmente inesperado, a vida tinha seguido um curso em que paternidade não parecia algo imaginável. Mas ela aconteceu. Eu e minha esposa estávamos separados, e ela engravidou, então voltamos, e desde o início eu sabia que não era pai biológico do meu filho.

Durante a gravidez me comportei como um estereótipo de pai, tentei mas não tinha o apego que a mãe esperava que eu tivesse. Dentro de mim, sabia que a minha relação realmente começaria com a chegada dele e fazia o que podia para tornar essa chegada a melhor possível. Não era falta de sensibilidade (pelo menos gosto de acreditar que não) e, sim, algo que me dizia que a única pessoa que poderia me aprovar como pai era o Dimi, não importa o que a mãe dele queria que eu fosse ou o que eu gostaria de ser e, sim, se ele me aceitaria. Continuar lendo

Papo de pai #2: Pais Eternos

8 ago

Por João Rodrigo Souza Leão

A respeito de ser pai, uma das únicas certezas é ter a mente repleta de dúvidas, pois toda vez que olho meu filho só vejo perguntas:

Será que ele será uma pessoa do bem? Será que ele terá uma profissão digna? Será que aprenderá com sabedoria meus ensinamentos? Ele será tolerante com os outros? Me ouvirá quando crescer? Será que minhas palavras servirão de conforto nas horas menos felizes?

Esse mar de perguntas é às vezes esquecido nos momentos de prazer ao dividir com ele a cama no dias frios fornece-lo calor e aconchego. Ao alimentá-lo e ver que os seus olhinhos não desgrudam dos meus. Ao ouvi-lo balbuciar as primeiras palavras desconexas, mas cheias de significado. Ou ainda ao vê-lo ensaiar os primeiros passos sem firmeza seguidos das primeiras quedas.

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Na obra autobiográfica “O filho Eterno”, do escritor Cristóvão Tezza, o autor relata sua experiência de ser pai de um filho com Síndrome de Down. O título da obra sinaliza que os desafios e angústias deste e de outros pais são contínuos e duradouros, pois crianças com tal necessidade especial tendem a consumir mais tempo e dedicação de seus pais. O autor relata as batalhas, as lutas e ainda cada pequena conquista e vitória alcançada por seu filho. Segundo o autor, seu filho será um filho eterno.

O Filho Eterno, Cristovão Tezza. Editora Record, 2007

O Filho Eterno, Cristovão Tezza. Editora Record, 2007

Muitos papais enfrentam ainda a angústia de serem os provedores de conforto e segurança. E isso, encurtando a história, exige dinheiro. Embora a felicidade junto dos filhos não dependa somente disso, os pais travam uma luta silenciosa a cada jornada de trabalho a cada desafio financeiro e a cada revés monetário. Homens não falam muito de seus problemas e muitas vezes guardam essas incertezas internamente. E muitas vezes, por serem também “meninos”, acabam por transformar problemas em brincadeiras, tristezas em fantasias.

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O que faz de nós papais?

O simples fato de engravidarmos uma mulher? O ato de criar os pequenos e adoráveis bebês? Ou será que já nascemos papais e tudo isso seja fruto do instinto? Será que está tudo nos genes, como sugere o renomado biólogo Richard Dawkins em seu aclamado Best Seller “O Gene Egoísta”?

Talvez não seja nada disso.

Eu, particularmente, me tornei pai no momento que soube da gravidez de minha esposa. Outros papais viram papais aos poucos, ao longo dos nove longos meses de gestação. O importante é descobrir que aquele pequeno ser depende muito do bem estar e da segurança que o papai proporciona ao lar e à família.

Muitos tornam-se papais porque querem a continuidade de sua linhagem. Outros ainda, referem-se à necessidade de ter alguém na velhice que os ampare. Talvez a mais bela definição da paternidade seja a que William Sheakespeare relata em seu soneto número 12:

“Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;

Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia a sobra franca
E em feixe atado agora o vejo trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;

Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono

Morrem ao ver nascer a graça nova.
Contra a foice do tempo é vão combate
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.”


Fica evidente que segundo Sheakespeare a única maneira de vencer a morte é a procriação, fazer cópias de si mesmo. Mas será que somos apenas isso? Meros replicadores? Simples máquinas de copiar genes? Ou será que a investida dos papais é algo maior? Um exercício de carinho? Ou ainda a própria definição do amor?
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Talvez as respostas sejam complexas demais.
Pode ser que elas nem existam. Pode ser também que elas sejam desnecessárias frente ao zelo e ao cuidado que os papais tem com seus filhotes.

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Existem pais que não precisam de rótulos ou definições, pois atuam como se tivessem nascido para a paternidade.

Apenas não carregaram os pequenos em seus ventres porque a natureza e a evolução negou isso a eles. Muitos papais colam seus rostos nas carinhas dos seus bebês e sentem o cheiro de sues filhos. Outros pressentem e evitam o perigo; amparam com carinho os seus pequenos. E mesmo depois que estes crescem, o carinho continua o mesmo.

São papais eternos.

 

Talvez ser pai seja mesmo muito complexo, mas a própria natureza nos dá lições de reciclagem, de vida e renascimento.

As estrelas, por exemplo, tem um ciclo de vida. E no final, ao esgotarem o combustível de seus núcleos em chamas, algumas explodem em espetaculares supernovas. O produto da morte estelar é um meio rico em novos elementos químicos que dará origem, no tempo certo, às novas gerações de estrelas.

 

Talvez a missão dos papais seja mesmo essa:

Ensinar o que puderem aos seus pequenos, amá-los infinitamente e após um certo tempo imitarem as estrelas, cedendo lugar a uma nova geração, ainda mais rica, observando que seus filhos finalmente cresceram!

 

Cabe a nós papais termos a certeza de que nossos filhos, um dia, possuirão brilho próprio e iluminarão nossas vidas,

como as estrelas do céu.

 

João pai e João filho

João pai e João filho

João Rodrigo Souza Leão nasceu no Rio de Janeiro, mas mora no sul do Brasil desde sempre. Escolheu a física e a astrofísica como profissão, mas não esquece a literatura e paixão pelas artes. No dia a dia estuda a composição química de galáxias, mas também escreve contos, poemas e crônicas. Atualmente vem aprendendo a ser o papai do Joãozinho, que tem lhe mostrado outras janelas para o vasto universo interior constituído pela mente e pelas percepções humanas. Contato e outros textos do autor, você encontra  em:

O monstro é a violência, não o menino

7 ago

Sobre o vídeo do menino agredindo fisicamente crianças menores numa escolinha – sabe qual é o maior absurdo que vejo? Os comentários que o chamam de monstro e desejam que horrores aconteçam a ele.

O que se vê no tal vídeo [que eu não vou postar aqui, não] é uma cena lamentável… Parece que ninguém naquela escola sequer supõe que aquilo aconteça. O menino espera até que as professoras não estejam olhando e, sem mais nem menos, agride um ou outro coleguinha que, por ser muito menor que ele, não se defende, nem mesmo parece saber expressar o ocorrido. Apenas chora e ele sai de perto como se nada tivesse acontecido… E repete o ato novamente várias e várias vezes depois.

Sim, é horrível ver ele batendo nos menorzinhos! É angustiante! Mas o mostro é a violência, não o menino. Parece que muitos não notam que se trata de um menino!!! Um menino que, de alguma forma, acumulou toda aquela agressividade em si e isso é muito, muito triste.

Vejo muitos comentários perguntando ‘cadê os pais dessas crianças?’ – bom, uma vez que a filmagem tenha sido feita numa escolinha, imagino que estejam trabalhando e, como a maioria de nós, confiando nas pessoas com as quais deixam os seus filhos nas horas em que precisam se ausentar, seja para garantir o sustento deles, seja para resolver outras coisas da vida pessoal.

E ‘cadê os professores’ que deveriam olhar por eles? Essa, sim, é uma pergunta pertinente. Mas vale lembrar que professores são pessoas, não máquinas – eles têm fome e necessidades fisiológicas. Eles se distraem e se ausentam ou piscam, porque são humanos! Então, sim, eles comentem erros, como todos nós… Mas também não são eles os monstros.

Sim, falta zelo por aquelas crianças. Sim, faltam adultos mais atentos que as cuidem e instruam… E se mais alguma coisa falta àquele menino, certamente, não é mais violência,  é amor! O amor é a única saída.

Cuidar das criança é responsabilidade de todos nós.

E isso precisava muito mesmo ser dito aqui.

Porque o amor é a cura!

Papo de pai #1: Ano Um

6 ago
Costumamos dizer que esse blog fala sobre ‘maternagem’, pois nós, autoras,  somos mães, portanto falamos dos anseios e jeitos de esperar, parir e criar filhos como mães que somos, não poderia ser diferente. Mas, na verdade, esse blog é mais que isso – é um blog sobre criação com apego, sobre alimentação saudável, sobre brincar na rua, sobre mais criatividade e menos consumismo, sobre…
…criar filhos da melhor maneira que se pode criá-los.
E isso não é coisa de mãe. É coisa de quem cria filhos!
Isso é coisa de pai tanto quanto é de mãe!
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E como será que funciona pra eles? Será que tem diferença?
Isso só um pai poderia responder…  então convidamos alguns amigos pais – pais presentes, pais apaixonados, pais reais – para que eles nos falassem um pouco, cada um a sua maneira, das coisas da paternidade. E em agosto, mês dedicado a eles [ok, data comercial, blá blá blá... mas pode ser usada para o bem!] o AG abre espaço para o Papo de Pai – que começa agora e com um texto muito especial, não por ser o primeiro, mas por ser lindo, por ser forte, por ser real – obrigada, Henry, por nos trazer isso!
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Ano Um
Por Henry Alfred Bugalho

Nunca entendi bem porque as pessoas põem filhos neste mundo fodido. Principalmente porque boa parte dos problemas é causado pelas próprias pessoas.

Irresponsáveis criando mais irresponsáveis.

Nunca entendi bem, e passei a entender menos ainda depois de ter o meu próprio filho.

Por que fazemos isto? Qual é o sentido essencial deste ato? O que esperamos disto?

Já concluí que estas são questões falsas. Não podemos esperar sentidos essenciais para nada.

Os sentidos são criados. Nós os criamos. Nós temos de inventar os porquês.

Dizem (Lacan, suponho) que uma mulher se torna mãe no momento em que descobre a gravidez, enquanto o homem só se torna pai quando o bebê nasce.

Isto me parece natural.

A mulher não tem como tirar se si todas as transformações, os enjoos, a fadiga, a barriga crescendo, as posições incômodas para dormir, os chutes nas costelas e os soluços do feto. Está dentro dela.

Bebê e mãe são um só.

O pai é um espectador. Foi convidado para a festa, mas tem de vê-la do lado de fora.

A realidade da paternidade só desaba sobre os ombros do pai quando o bebê sai, chorando e tremendo, e nas noites sem sono que se seguem.

O pai nasce junto com o filho.

“O parto é um milagre; uma prova da nossa centelha divina”.

Quantas vezes já não ouvi algo semelhante expresso com outras palavras?

Para mim, assistir ao parto do meu filho foi a maior evidência da nossa natureza animal. É realmente um milagre, mas sem nenhuma relação com entidades supremas. É tão miraculoso e extraordinário quanto uma borboleta abrindo suas asas pela primeira vez após seu tempo no casulo.

Este é o nosso contato mais íntimo com todos os demais mamíferos; é o nosso vínculo com todas as demais criaturas vivas que subjugamos ou exterminamos.

O bebê nasce e, em contato com a pele da mãe, ameaça engatinhar, arrastando-se centímetros em direção ao peito.

Quão frágil somos neste instante, a mais dependente de todas as criaturas do planeta nesta primeira etapa! Sentimos medo de machucá-lo, como se fosse frágil e quebradiço.

Ele dorme, mas não queremos deixá-lo à sós nem um segundo.

Tão pequenininho e indefeso…

Os três primeiros meses parecem ser intermináveis. É como se houvéssemos ganhado um bonsai.

Um bonsai que chora, caga, mama e precisa de atenção vinte e quatro horas por dia.

Já tivemos um bonsai antes, que morreu em poucos dias. Esquecíamos de regá-lo e de pô-lo para pegar sol.

Se chorasse, cagasse e mamasse, talvez o nosso bonsai ainda estivesse conosco.

Os três primeiros meses são a prova de fogo, ou como dizem os americanos, o momento do “make it or break it”.

Creio que pais nenhuns se recuperam deste começo, que nunca mais voltam a dormir como antes, que nunca mais ouvem um choro se disparar alguns alarmes no cérebro.

O bebê tem tanta coisa para aprender, mas os pais também.

E não há atalhos.

Então ele começa a rir e a interagir. O bonsai vira gente.

Os primeiros meses de um bebê, que podiam muito bem ser usados pela CIA como estratégia de privação de sono para interrogar prisioneiros, dão lugar aos primeiros instantes realmente divertidos.

Quase todos os dias há uma surpresa, uma coisa nova que o bebê passou a fazer, que aprendeu sabe-se lá como. É uma máquina de aprendizado e nos faz indagar como deve ser incrível ver tudo pela primeira vez.

Estamos tão calejados que muitas vezes não percebemos como a vida é fantástica e singular. No entanto, para o bebê tudo é novidade: a bolinha, o cachorro, as pessoas, as luzes, as músicas, as sensações, os sabores.

Tudo está acontecendo pela primeira vez. E dá aquela inveja boa de poder se espantar uma vez mais diante de tudo.

O artista é um bebê que jamais deixou de se surpreender.

Há momentos em que os pais sentam-se num canto e dizem, com as mãos na cabeça: “Não posso mais…”

Há outros em que eles se abraçam e riem juntos vendo o filho: “Por que esperamos tanto tempo para vivermos isto?”

E há também quando estes dois sentimentos ocorrem simultaneamente.

Presenciamos muito a cena de pais sozinhos com seus bebês aqui na Espanha.

Não há esta divisão entre o que é papel da mãe e do pai, excetuando por limitações fisiológicas incontornáveis. Todavia, se um dia descobrissem uma técnica que permitisse ao pai dar o peito, penso que os espanhóis fariam sem titubear.

Ficaria feliz se meu filho crescesse num ambiente assim, onde o pai não é somente aquele que paga a conta.

Ser pais é trabalho em tempo integral. Trabalho para os dois.

Sem nos darmos conta, já se passou quase um ano. O bebê, que era tão dependente e estático, agora não para quieto um segundo. Tem tudo para descobrir e, se ele tiver sorte, sempre agirá desta maneira, percebendo o mundo como um local para ser explorado.

A grande aventura da vida.

Não tive pai. Ele morreu quando eu tinha apenas seis anos. Sempre ouvi que ele era um bêbado e um vagabundo.

Hoje, acredito que era apenas uma pessoa que precisava de ajuda, numa época em que isto era somente vadiagem.

Não sou um bêbado nem um vagabundo. Quero que meu filho se lembre do meu rosto e saiba quem eu fui de verdade. Quero estar ao lado dele em seus momentos mais felizes; quero que ele possa chorar no meu ombro as suas derrotas. Quero me orgulhar dele, independentemente de suas escolhas, e quero que ele se orgulhe dos pais que teve.

Não é pedir muito.

Estamos fazendo escolhas difíceis. Escolhas que influenciarão toda a vida dele, que poderão dar muito certo ou muito errado, das quais poderemos nos arrepender um dia.

Mas quais pais não têm tais inquietações?

A grande lição que o nosso filho aprenderá, se não conosco, certamente ao longo de seus sucessos e dissabores, é que toda escolha é delimitadora.

Escolher é renunciar a todas as demais opções. Ser livre é fazer sacrifícios.

Escolhemos estar ao seu lado.

Henry e Phillipe

Henry e Phillipe

Phillipe e Henry

Phillipe e Henry

Henry é curitibano, formado em Filosofia, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor de romances, novelas, coletâneas de contos e guias de viagem. Editor da Revista SAMIZDAT e fundador da Oficina Editora. Morou em Nova York, Buenos Aires, Itália, Portugal e está baseado, atualmente, em Madri, com sua esposa Denise, o bebê Phillipe e Bia, sua cachorrinha.

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Vale dizer também que o nascimento do Phillipe já foi contado aqui, por sua mãe, Denise Nappi – é só clicar para ler;]

 

 

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